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Escrever Neste momento, o prazo... ...para a entrega deste texto para a
FOLHA DE NITERÓI está estourado. Estou atrasado e não gosto de escrever em alta
velocidade pois escrever é uma atitude grave, logo, conseqüente. Falar é falar, o vento
leva as idéias que são apagadas em frações de segundos, mas o ato de escrever
documenta, imprime, grava, sacramenta. Apesar disso, escrever bem ou mal não está
diretamente ligado ao tempo, pois os textos para jornal dependem exclusivamente de
inspiração industrial, que é muito mais sensível, muito mais perigosa e muito mais
profunda do que a inspiração padrão. A inspiração industrial é imediata, urgente,
lida com o presente, um ato reflexo um pouco mais sofisticado. E escrever em tempo real
esse texto vai para a Internet daqui a 30 minutos exige muito mais do que
aquele que nos dá 30 dias de frente, tempo suficiente para um bom banho de loja,
substituição de adjetivos, acréscimo disso, retirada daquilo, o chamado acabamento
final. Em 30 dias dá até para se arrepender, apagar tudo e escrever outra coisa, o que
não é o caso agora. O que está aparecendo no monitor do computador é o que vai virar
tinta de jornal daqui a poucas horas pois estou fora do prazo. O curioso é que o prazo
estourado que gera uma ansiedade extra é o mesmo que nos joga na deliciosa brisa do
desafio, surf na cratera de vulcões interiores que jorram labaredas a muitos milhares de
quilômetros acima da nossa cabeça.
Minha idéia era escrever sobre um tema, mas logo percebi que era um assunto muito triste. Como todo mortal, tenho o direito de não querer mexer na tristeza hoje pois, quando se anda à flor da pele, tristeza e frustração tem seu peso quadruplicado. O tempo passando, a ansiedade aumentando, e finalmente chego ao computador e dou de cara com a tela branca, convite escancarado para um célebre mergulho no infinito. Me atiro nos braços do inconsciente e decido escrever sobre o escrever, esse gesto tão sublime e ao mesmo tempo mortal. Por quê? Porque a pena que escreve poemas lúdicos é a mesma que sangra e sua calúnias e sentenças, daí o respeito enorme que nutro pelo ato de escrever. Escrever fora do prazo... ....lembra os tempos em que descia a Rua Fagundes Varela com carrinhos de rolimã, um monte de garotos desafiando o trânsito, os caminhões, carros e policiais, usando toda a imortalidade que a adolescência nos convence que existe. Naquela rua muitos entenderam que só sabemos o que é limite quando chegamos perto dele e quebramos a cara, pois a velocidade que assusta é a mesma que encanta, e no caso de textos como esse, escritos fora do prazo, em ritmo de urgência, a sensação é parecida. Terror e êxtase misturados. Pensar que existe um rombo no jornal aguardando por esse texto gera uma sensação semelhante a das ondas gigantescas que, também na adolescência, pegávamos de peito na Itapuca. Éramos todos imortais, ignorávamos as pedras, as quinas, os ouriços, o vento, a chuva, ignorávamos a razão porque, como bons adolescentes, éramos movidos apenas pelos pulsos, pelos impulsos, pelos espasmos de emoção.Esse monitor em branco lembra as ondas encaixotadas pelas grandes ressacas na Itapuca, vendo lá embaixo o tapete de pedras e mariscos desafiar nosso talento, mas sobretudo, vivenciar e mamar nas tetas do prazer que é se misturar a uma onda gigantesca, paredão verde, ameaçador e maravilhoso. E o fato de seguirmos até o final, triunfantes, é uma amostra de que na vida só existem duas opções: ir ou ir. A adolescência é a prática de futuras teorias e quando estamos à flor da pele recorremos à memória só para sentir o gosto da transgressão absoluta, a popular "saudade de mim". Linha 45, informa o editor... ...de texto, mas não sinto nenhuma vontade de parar de escrever porque a fantasia tem esse enorme poder de nos arremessar no tempo. E neste exato momento, mesmo com os telefones tocando, a gritaria que cerca um jornalista quando seu texto está atrasado, dá para sentir o cheiro do mar e a dor muscular de um fim de dia cheio de ondas terrivelmente belas e a sensação olímpica, não da vitória, mas da capacidade de resistir. A adolescência é um caos atemporal pois seus efeitos volta e meia reaparecem em qualquer beco da vida e ofuscam parcialmente a nossa reflexão. Mas é esse caos que nos move em direção ao desconhecido, como letras que pousam num espaço em branco, sem terem a menor idéia de qual será o sentido da frase. Sabem que existe um texto mas não há noção sobre o contexto, apesar da certeza de que a essência da vida mora na busca implacável do desconhecido. Afinal, no teatro da existência não existe ensaio geral.P.S. Confesso minha total ignorância sobre a legislação dos Estados Unidos. Não entendi lhufas do que ocorreu com Bill Gates. Se fosse no Brasil, terra da inveja onde, segundo Tom Jobim, a melhor saída é o aeroporto, tudo bem, mas pelo que entendi Bill Gates foi punido por prática de monopólio por ter enfiado o programa de navegação Internet Explorer como parte integrante do sistema operacional Windows 2000. Certo. O que não entendi é que usuário da Internet só usa o Explorer se quiser. Se não quiser, ele baixa outros navegadores como o Netscape e até um tal de Opera. Além do mais, minha vasta ignorância insiste em querer saber: que crime há em ser a melhor do mundo, no caso a Microsoft de Bill Gates? Um conhecido meu decidiu romper com a Microsoft e instalou no seu computador o sistema operacional Linux, aquele cuja logomarca é um pinguim. Não gostou do tal sistema, cheio de falhas e voltou ao Windows. Eu mesmo decidi evitar trabalhar usando o editor de texto Word da Microsoft e tentei um similar da concorrência. Quase atirei o computador no tanque de lavar roupas pois o tal editor é uma anta, chama fichário de ficheiro, acentua mal, enfim, é um desastre. Por isso não entendi a punição sofrida pela Microsoft, obrigada a ser rachada em suas empresas. Nasci e cresço no terceiro mundo, onde nos bares é comum lermos que "quem não tem competência não se estabelece". Nos EUA é o contrário? |
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