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Edição 654 - Semana de 8 a 14 de março de 2008
..::data e hora::..    00:00:00

Cidade  redacao@folhanit.com.br


Violência doméstica
Denúncia é a melhor saída

O ato desumano que ocorreu em 8 de março de 1857 - quando mais de cem operárias foram queimadas dentro de uma fábrica por protestarem por melhores condições de trabalho – ficou marcado, 57 anos depois, como o Dia Internacional da Mulher. E, por incrível que pareça, até hoje, as mulheres precisam lutar bravamente pelos seus direitos, inclusive por dignidade dentro de casa.
A Lei nº 11.340/06, conhecida como Lei da Maria da Penha, é um dos exemplos da luta feminina contra uma série de injustiças. Com um pouco mais de um ano em vigor, ela garante medidas como a saída do agressor de casa, a proteção dos filhos e o direito da mulher de reaver seus bens e cancelar procurações feitas em nome do agressor. De acordo com a lei, a violência psicológica passa a ser caracterizada também como violência doméstica. “A mulher deve denunciar sempre. Esse é o melhor caminho para que haja uma proteção pública e eficaz. Com a acusação, é possível fazer a prisão preventiva do agressor. Essa garantia de poder denunciar pode intimidá-lo”, recomenda a advogada de Direito de Família Alessandra Abate.
De acordo com a profissional, a mulher agredida pode ficar afastada do trabalho durante seis meses, sem perder o emprego, caso haja comprovação de que foi ferida sua integridade física ou psicológica. Com auxílio de testemunhas, psicólogos e especialistas, é possível verificar tal acusação.

Pernambuco tem mais maridos violentos
Embora nem sempre seja possível quantificar as ocorrências, uma pesquisa revela que o cenário atual da violência doméstica encontra-se em níveis estáveis e que o estado brasileiro com maior registro de casos é Pernambuco. É o que informa a advogada e doutora em Ciências Jurídicas Matilde Carone Slaibi Conti. “Não é uma questão de classe social. A submissão se encontra no inconsciente feminino independentemente da situação financeira da mulher”, diz Matilde.
Aquelas que denunciam seus agressores justificam a atitude perversa do parceiro pelo uso excessivo de bebida alcoólica. “Outro ponto que se deve levar em conta é o controle social. É o que a Psicanálise chama de ‘Síndrome do Pequeno Poder’. O homem transfere a pressão sofrida pelo Estado para a mulher. Em casa, ele libera toda a raiva que não pode descontar no trabalho, na sociedade”, explica Matilde. Por outro lado, as que se inibem e desistem da denúncia quase sempre o fazem por questões financeiras. As mulheres de poucos recursos porque não têm como se sustentar sem o companheiro e as de mais recursos, por uma questão de divisão de bens.

HUAP atende a mulheres agredidas
O Programa SOS Mulher, do Hospital Universitário Antonio Pedro – HUAP, é um dos serviços gratuitos de amparo à mulher disponíveis em Niterói. Ele atende a vítimas de violência doméstica e sexual no serviço de emergência 24 horas do próprio hospital e, caso haja desdobramentos, encaminha as pacientes a consultas com profissionais de Psicologia e/ou Serviço Social.
“Aqui não temos estatísticas porque muitos casos se perdem, as mulheres escondem as agressões e se dizem vítimas de quedas. Num tratamento mais demorado, algumas acabam confessando ou o próprio profissional faz uma leitura sensível do caso e comunica à equipe”, conta a assistente social Leila Maria C. Guidoreni, coordenadora do projeto. “Em caso de demanda jurídica, encaminhamos a paciente ao órgão de referência de sua cidade, no caso de Niterói, ao CODIM, para receber suporte adequado”, conclui a assistente que diz atender mulheres de 18 a 71 anos de idade, vítimas de agressão doméstica ou sexual.

Maria da Penha Maia Uma história para contar
Em 1983, o marido da biofarmacêutica Maria da Penha Maia, o professor universitário Marco Antonio Herredia, tentou matá-la duas vezes. Na primeira vez, atirou e a deixou paraplégica. Na segunda, tentou eletrocutá-la. Para ver o seu agressor condenado, Maria da Penha lutou durante 20 anos. Por esse motivo, virou símbolo contra a violência doméstica.
Após as tentativas de homicídio, ela começou a atuar em movimentos sociais contra violência e impunidade e hoje é coordenadora de Estudos, Pesquisas e Publicações da Associação de Parentes e Amigos de Vítimas de Violência (APAVV) no Ceará, estado natal.

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