Lendo o fartísimo noticiário sobre a operação
Satiagraha, os nomes de pelo menos três personagens chamam a
atenção. Não pelo fato de aparecerem em meio a um escândalo que
envolve também gente do governo, mas por serem os mesmos de
outros casos escabrosos. É recorrente. O chefe de gabinete do
presidente Lula, Gilberto Carvalho; o ex-deputado Luiz Eduardo
Greenhalgh e o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. O trio
esteve presente no caso do prefeito assassinado de Santo André,
Celso Daniel. Gilberto Carvalho foi acusado pela família de ser
o homem que carregava a mala de dinheiro que saía da propina das
empresas de transporte da cidade. Dirceu, na época ministro,
seria o receptador, segundo os procuradores que investigam o
caso, e Luis Eduardo Greenhalgh foi o advogado designado pelo PT
para representar a família de Celso Daniel no processo, mas
afastado porque os parentes do ex-prefeito entenderam que ele
mais atrapalhava do que ajudava. Os três retornaram ao
noticiário durante o escândalo do mensalão e agora voltam na
Operação Satiagraha.
O que chama a atenção não é a operação em si,
que é mais uma das centenas que a Polícia Federal vem realizando
normalmente, gente que roubou, fraudou ou as duas coisas juntas,
e por isso está sendo procurada. Mas a reação da classe política
e de parte do Judiciário foi de matar de vergonha qualquer
brasileiro. Primeiro, o silêncio constrangedor que assolou o
Congresso Nacional depois de divulgados os nomes dos que haviam
sido presos. Todos apavorados para saber se os seus nomes
apareceriam nas agendas ou no pen drive do banqueiro Daniel
Dantas – dali para os jornais seria mera conseqüência,
concluíram. Mas ali ao lado, no Supremo Tribunal Federal, foi
onde se deu a maior surpresa. Numa decisão em tempo recorde, o
ministro Gilmar Mendes mandou soltar o banqueiro e mais nove
pessoas ligadas a ele. O ex-prefeito de São Paulo Celso Pita e o
mega-investidor Naji Nahas, presos na mesma operação, não
receberam a mesma complacência do ministro, ficaram para depois.
No meio jurídico, a rapidez na decisão de
Mendes de soltar o banqueiro recebeu muitas criticas. O juiz
federal Fausto de Sanctis, que havia mandado prender Daniel
Dantas, não teve dúvida, mandou prender novamente. Daí para
frente, o que aconteceu só comprova que as nossas instituições
são frágeis, e que, na maioria das vezes, as pessoas que estão à
frente delas não são tão preparadas assim. O próprio ministro
Gilmar Mendes, a quem caberia manter-se em silêncio,
desqualificou o colega De Sanctis, e ainda pediu para que o
Conselho de Nacional de Justiça investigasse o juiz. Na verdade,
por tê-lo deixado com cara de bobo. Chamou ainda o ministro da
Justiça, Tarso Genro, de incompetente. Genro, por sua vez,
defendeu a Polícia Federal como se fosse o superintendente da
instituição, e não o ministro da Justiça. Aliás, não é a
primeira vez que Tarso Genro se coloca desta forma.
Aos políticos coube o papel mais fácil:
explicar à população o que verdadeiramente estava acontecendo.
Mas o que se viu foi uma ridícula discussão sobre o uso ou não
de algemas em operações da Polícia Federal (se vale para o
traficante, vale também para o banqueiro, por que não?). O que
os políticos querem, realmente, é que quando o preso não puder
incriminar ninguém pode ser algemado. Se for gente deles, aí não
pode, aí é "espetacularização" da Polícia (o termo foi muito
usado pelos políticos na semana passada). Bicheiro pode ser
algemado, banqueiro não.
Também reclamaram muito dos grampos
telefônicos, acham um absurdo. Claro, o grampo telefônico com
autorização judicial é uma prova difícil de ser mascarada. A
gravação de conversas é uma arma poderosa na mão da Justiça.
Impressionante também a facilidade que o banqueiro Daniel Dantas
tinha para conseguir verbas públicas - agora mesmo o Banco do
Brasil vai liberar 4 bilhões de reais para a compra de uma
companhia de telefonia móvel cuja controladora é ligada ao
banqueiro.
Mas o final dessa história toda é a melhor
parte. Os delegados envolvidos na investigação, que já dura
quatro anos, foram "saídos" da conclusão dos trabalhos. É, aqui
no Brasil é assim, delegado que não recebe grana e ainda prende
os amigos deles tem mais é que ser transferido. O delegado
Protógenes Queiroz foi afastado do comando da operação. Na
segunda-feira passada, o presidente Lula autorizou a sua
substituição. Diante da repercussão negativa, Lula voltou atrás
e deu a entender que o delegado havia pedido para sair. Pela
primeira vez um delegado foi afastado do comando em meio a
investigações. Na verdade, desde que vazaram para a imprensa o
teor da conversa entre o chefe de gabinete da presidência,
Gilberto Carvalho, e Luiz Eduardo Greenhalgh, advogado de
Dantas, a chapa esquentou muito para os delegados envolvidos. Aí
tiveram que sair. A coisa não acaba por aí, mas está bem
encaminhada para não dar em nada. Só falta agora esperar o que
vai acontecer a outro banqueiro famoso, Salvatore Cacciola, dono
do banco Marka, que deu um rombo na praça de mais de um bilhão,
em 1999, foi preso mas, graças a um habeas corpus concedido pelo
ministro do STF Marco Aurélio Melo, fugiu para a Itália, já que
tem dupla cidadania. Foi preso em Mônaco e extraditado na
quinta-feira para o Brasil, onde desembarcou sem algemas. Quem
vai conceder o habeas corpus para que o banqueiro Cacciola fuja
de novo? Dá-lhe Brasilllll!!!!!