A decisão do Supremo Tribunal Federal – STF
de liberar candidatos com ficha suja na Justiça acabou de vez
com a pretensão dos juízes eleitorais estaduais de impugnar
candidaturas que não condizem com a importância do cargo que
estão pleiteando. Devem estar rindo, hoje, todos aqueles que têm
processos em andamento. Os representantes de facções criminosas
e com extensa folha corrida podem ser candidatos, os que
roubaram e desviaram dinheiro público também podem ser
vereadores ou prefeitos. Os que contrataram sem licitar também
podem, os que contrataram para serviços particulares com
dinheiro público também, estão aptos. Na verdade, o STF não é o
maior culpado. A justiça trabalha tendo a lei como base de
qualquer decisão. O artigo que diz que não poderá concorrer o
candidato que tenha seu processo "transitado em julgado" (quando
o réu é condenado) é que está impendido as candidaturas.
Com a eterna e insolúvel lentidão da Justiça
brasileira o tal do transitado em julgado demora anos. O maior
exemplo de que bom senso não existe, ou se existe não pode ser
aplicado, é o candidato a prefeito de São Paulo, Paulo Maluf. Já
foi preso, tem dezenas de processos contra si, dos mais
variados, que vão desde improbidade administrativa, passando por
evasão de divisas, formação de quadrilha e crime contra a ordem
tributária. Mas como não existe o tal do "transitado em
julgado"...
Existe outra expressão muito interessante, a
"presunção da inocência", que cabe em todos os casos. O bandido
Elias Maluco, por exemplo, se estivesse solto poderia ser
candidato a prefeito do Rio, até que seu caso seja "transitado
em julgado" e em plena "presunção da inocência"... O exemplo é
exagerado e proposital para mostrar que é urgentíssimo que
parlamento brasileiro faça a sua parte e legisle, que é para
isso que ele existe, para fazer leis. É ridículo que essa
questão de impugnação de candidaturas tenha que chegar até o STF
para ter uma solução. Os nossos deputados e senadores, que
ficaram agitados pelo fato de terem uma matéria que é de
responsabilidade do Poder Legislativo, resolveram e assistiram
mais uma vez a intervenção do Judiciário, deveriam se lembrar
que a reforma política tão esperada por todos até hoje não foi
votada. Não foi porque não interessa a ninguém. Mais da metade
dos integrantes da Câmara e do Senado tem problemas com a
justiça. O presidente do Senado, Garibaldi Alves, logo depois da
decisão do STF: "Neste caso, houve certa omissão da Casa. Não
teríamos o Judiciário interferindo nas nossas atribuições se já
tivéssemos legislado sobre o tema". Pelo menos um reconhece de
quem é a culpa.
Entidades como a Escola de Magistratura, que
estava empenhada na divulgação dos nomes dos candidatos com
ficha suja, ainda não se manifestaram se vão continuar ou não
divulgando a lista de nomes. Seria bom que continuassem. Já que
pela via judicial não haverá impugnação, poderia ser pelo voto.
O eleitor terá que fazer a sua parte e impugnar na urna os
candidatos que, apesar de não terem um "transitado em julgado",
têm ficha suja. Demos um passo para trás, mas isso é a cara do
Brasil.