A Assembléia Legislativa do Estado cumpriu o
seu papel cassando o mandato do deputado Álvaro Lins. É a
terceira cassação este ano, o que pode ser considerado um
recorde histórico, já que apenas quatro parlamentares tiveram
seus mandatos cassados na Casa. Jane Cozzolino, Renata do Posto
e Álvaro Lins vão se juntar ao ex-deputado Aloísio de Castro,
cassado quando Marcelo Alencar ainda era o governador. A bola da
vez agora é o dublê de deputado e miliciano Natalino Guimarães,
que está preso. Depois da lambança que fizeram quando decidiram
mandar soltar o delegado Álvaro Lins e de enfrentarem um
verdadeiro bombardeio da imprensa e da opinião pública - e como
gato escaldado não gosta de água quente - os deputados tiveram o
cuidado de não incorrerem no mesmo erro e deixaram o Natalino
por lá mesmo. A novela Álvaro Lins se arrasta desde dezembro de
2007 e só agora chega ao fim. Mesmo que seus advogados recorram,
e certamente irão fazê-lo, o plenário da Alerj é soberano: da
cassação ele não escapa mais.
Na verdade, esse câncer que se chama "votação
secreta" quase, mas quase mesmo, não deixava tudo como estava.
Foram 36 votos a favor da cassação e 24 contra. Se tivesse
obtido mais um voto, Lins teria sido absolvido. O voto secreto é
assim, o parlamentar vota com a conveniência e não com a
consciência. Numa Casa em que 30% dos parlamentares estão sendo
investigados por crimes diversos, o espírito de corpo prevalece.
É a velha máxima do "hoje é ele, amanhã pode ser eu". Talvez um
dia os deputados tomem vergonha e votem o fim do voto secreto
para cassações de parlamentares. Sonhar não custa caro.
O que chama atenção nos episódios recentes -
o do vereador Jerominho, que está preso; o de seu irmão
Natalino, também preso; o do vereador de São Gonçalo, Mota da
Copasa, preso junto com seus filhos; e o caso de Lins, que teve
muita repercussão - é como a bandidagem organizada, dissimulada
e disfarçada descobriu no Legislativo um porto seguro para as
suas ações pouco ortodoxas no que diz respeito à Justiça. A
famigerada "imunidade parlamentar", que deveria se chamar
"impunidade parlamentar", é um mal que contraria o bom senso
comum. Como um cidadão eleito pelo povo, ganhar um mandato para
que, em nome daqueles que o colocaram lá, trabalhe para melhorar
as condições atuais de vida no Brasil, pode contar com um
mecanismo que impede a Justiça de puni-lo por algum crime? O
cidadão de bem, que cumpre o seu papel na sociedade direitinho,
não tem sequer a segurança do aparelho policial a seu favor,
pelo contrário, vira e mexe é vitimado por esse mesmo aparelho.
Mas o que mais impressionou na sessão que
cassou o mandato do deputado Álvaro Lins foi a virulência de seu
discurso. Lins chamou os jornalistas de "porcos" e os policiais
federais que o prenderam de "cachorros". É engraçada essa coisa
do acusado, do acuado, voltar suas baterias para a imprensa. É
comum isso, do presidente Lula aos banqueiros Salvadore Cacciola
e Daniel Dantas, todos jogam nos ombros da imprensa a culpa por
todos os males que se abatem sobre eles. Álvaro Lins adorava a
imprensa quando a sua vida estava numa boa, quando era o
todo-poderoso, dava longas entrevistas aos jornais e TVs
(gostava mais dessas, porque acariciam os egos muito grandes).
Hoje, os jornalistas são porcos.
A imprensa e os jornalistas estão sempre
sendo processados principalmente por políticos ou por aqueles
que pensam que são políticos, porque os que são de fato dela não
reclamam, esclarecem, mostram seu ponto de vista, explicam. Os
que se acham poderosos xingam, processam, como se um xingamento
ou um processo pudesse mudar o curso da história. Uma mentira
denunciada será sempre uma mentira, um crime denunciado nunca
deixará de ser crime. O poder e a imprensa são duas coisas que
não combinam, não se afinam, não se misturam. Só gosta dos
"porcos" quem lhes dá comida. Depois que deixam de pisar na
lama, querem que porcos morram de fome.
O PT e o governo atual é um exemplo disso. O
PT e a imprensa foram amantes durante 20 anos. Depois da posse,
houve a separação quase litigiosa. Tentativas de cerceamento,
limitações, regras, etc. têm vindo de todos os lados, a mais
recente surpreendentemente veio do ministro Gilmar Mendes,
presidente do Supremo Tribunal Federal. O ministro quer que a
imprensa tenha uma liberdade "relativa" num momento em que o
próprio STF tem para apreciar matéria do deputado Miro Teixeira
que pede a extinção da lei de imprensa na sua totalidade.
Entulho autoritário e antidemocrático que ainda vigora no
Brasil, a sugestão do ministro Mendes soa muito mal, logo ele,
que deveria defender o contrário, ser refratário a qualquer
limite.
A fala de Lins serviu para mostrar mais uma
vez que democracia exige imprensa livre, porque ela incomoda
muito aqueles que não conseguem manter os códigos de postura, de
conduta e de respeito ao próximo que a sociedade exige. Vida
longa aos porcos!