Para não fugir à regra, a classe política deu
mais uma demonstração de que pouco se interessa pelo que está
acontecendo do lado de fora da redoma de vidro em que vive. Mais
uma vez, o que a opinião pública possa achar de suas decisões
também não foi fator de preocupação. A "classe" só se preocupa
com ela mesma. Com os seus próprios interesses, com a sua
sobrevivência. O corporativismo é mais forte do que tudo. Mais
forte do que a evidência, mais forte do que a prova e a decisão
judicial. E foi por conta desse corporativismo que na última
quarta-feira o Conselho de Ética da Câmara Federal absolveu o
deputado Paulo Pereira da Silva, presidente da Força Sindical,
no processo que tratava de sua cassação.
O relatório do deputado Paulo Piau, apesar de
bem feito e conclusivo, não foi suficiente para convencer os
deputados aliados de Paulinho. Foram dez votos a quatro a favor
da absolvição.
As acusações a Paulinho são de recebimento de
propina para intermediar ações de interesses de terceiros dentro
do BNDES e lavagem de dinheiro passando pela ONG Meu Guri,
presidida por sua mulher, Elza Pereira. Existe também contra
Paulinho, o deputado da Força, e mais onze pessoas, acusação de
fraude de documentos para obtenção de empréstimo de dois milhões
e oitocentos mil reais, junto ao Ministério do Desenvolvimento
Agrário, para um projeto de reforma Agrária. Vejam como o
deputado da força é preocupado com as questões sociais! O
problema é que a fazenda que foi comprada pelo grupo tinha
apenas 50% de suas terras dentro de uma reserva ambiental. O
projeto, claro, nunca foi levado adiante e do dinheiro não se
tem notícia.
Outra acusação contra o deputado é a de
contratação, sem licitação, da Fundação João Donini pela Força
Sindical no valor de 215 mil reais. A central sindical tinha
três convênios assinados com o Ministério do Trabalho e Emprego.
A fundação contratada ministraria cursos profissionalizantes
para pessoas de baixa renda, com verbas do Fundo de Amparo ao
Trabalhador – FAT. Apenas um pequeno problema técnico chamou a
atenção do Ministério Público de Ourinhos (SP): dos 26.991
alunos inscritos, 24.948 tinham o mesmo CPF, entenderam? Apenas
2.043 CPFs eram diferentes. A coisa era grosseira mesmo, nem os
irmãos metralha fariam parecido. Pois é.
Nem mesmo esta folha corrida e gravações de
Paulinho falando ao telefone tratando destes assuntos foram
suficientes para sensibilizar os deputados.
A vitória de Paulinho no Conselho de Ética,
aliás, deveria mudar de nome porque na verdade trata-se de uma
derrota para todos: para o próprio Paulinho, que teve sua vida
devassada, sua cara estampada em todas as revistas e vai ser
sempre olhado com desconfiança. Para seus pares, não servirá
mais aos propósitos do grupo, uma vez que foi muito exposto.
Para esse tipo de atividade, a descrição e o anonimato são
ferramentas importantes. Perde a política brasileira, que mais
uma vez passou seis meses sangrando. Perdem os cidadãos de bem,
que mais uma vez assistem passivamente os que, com o voto
popular, chegam ao poder para se beneficiar dele. Tem sido assim
nos últimos anos.
Antigamente, essas coisas aconteciam sempre
com pessoas ligadas ao partido do governo ou aliados. PDS e PFL
foram campeões de casos parecidos. Os anões do orçamento são um
desses casos. De um tempo para cá, parece que os partidos que
passaram anos condenando a prática da pilhagem do dinheiro
público, ou privado por vias públicas, resolveram também entrar
na dança. O mensalão do PT é um exemplo emblemático. O deputado
Paulo Pereira, o Paulinho da Força, é do PDT, partido do saudoso
Brizola, que se estivesse vivo já o teria afastado da legenda.
Não é admissível que condutas pessoais levem junto o nome do
partido. Dias atrás, o STE deliberou que, em casos de
infidelidade partidária, o mandato pertence ao partido. Embora
absolvido pelo Conselho de Ética, o estrago para a imagem do
PDT, um dos poucos partidos ainda sérios, foi enorme.
Se Paulinho não perdeu o mandato, que perca a
sigla, que vá se abrigar em outra legenda mais adequada, com
mais experiência nessa matéria de escândalos, desvio de dinheiro
etc. Que tal o PMDB?