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Edição 693 -  Semana de 6 a 12 de dezembro de 2008
..::data e hora::..    00:00:00

Política   Leonardo Aguiar   andradeaguiar@uol.com.br


Bota força nisso

Para não fugir à regra, a classe política deu mais uma demonstração de que pouco se interessa pelo que está acontecendo do lado de fora da redoma de vidro em que vive. Mais uma vez, o que a opinião pública possa achar de suas decisões também não foi fator de preocupação. A "classe" só se preocupa com ela mesma. Com os seus próprios interesses, com a sua sobrevivência. O corporativismo é mais forte do que tudo. Mais forte do que a evidência, mais forte do que a prova e a decisão judicial. E foi por conta desse corporativismo que na última quarta-feira o Conselho de Ética da Câmara Federal absolveu o deputado Paulo Pereira da Silva, presidente da Força Sindical, no processo que tratava de sua cassação.

O relatório do deputado Paulo Piau, apesar de bem feito e conclusivo, não foi suficiente para convencer os deputados aliados de Paulinho. Foram dez votos a quatro a favor da absolvição.

As acusações a Paulinho são de recebimento de propina para intermediar ações de interesses de terceiros dentro do BNDES e lavagem de dinheiro passando pela ONG Meu Guri, presidida por sua mulher, Elza Pereira. Existe também contra Paulinho, o deputado da Força, e mais onze pessoas, acusação de fraude de documentos para obtenção de empréstimo de dois milhões e oitocentos mil reais, junto ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, para um projeto de reforma Agrária. Vejam como o deputado da força é preocupado com as questões sociais! O problema é que a fazenda que foi comprada pelo grupo tinha apenas 50% de suas terras dentro de uma reserva ambiental. O projeto, claro, nunca foi levado adiante e do dinheiro não se tem notícia.

Outra acusação contra o deputado é a de contratação, sem licitação, da Fundação João Donini pela Força Sindical no valor de 215 mil reais. A central sindical tinha três convênios assinados com o Ministério do Trabalho e Emprego. A fundação contratada ministraria cursos profissionalizantes para pessoas de baixa renda, com verbas do Fundo de Amparo ao Trabalhador – FAT. Apenas um pequeno problema técnico chamou a atenção do Ministério Público de Ourinhos (SP): dos 26.991 alunos inscritos, 24.948 tinham o mesmo CPF, entenderam? Apenas 2.043 CPFs eram diferentes. A coisa era grosseira mesmo, nem os irmãos metralha fariam parecido. Pois é.

Nem mesmo esta folha corrida e gravações de Paulinho falando ao telefone tratando destes assuntos foram suficientes para sensibilizar os deputados.

A vitória de Paulinho no Conselho de Ética, aliás, deveria mudar de nome porque na verdade trata-se de uma derrota para todos: para o próprio Paulinho, que teve sua vida devassada, sua cara estampada em todas as revistas e vai ser sempre olhado com desconfiança. Para seus pares, não servirá mais aos propósitos do grupo, uma vez que foi muito exposto. Para esse tipo de atividade, a descrição e o anonimato são ferramentas importantes. Perde a política brasileira, que mais uma vez passou seis meses sangrando. Perdem os cidadãos de bem, que mais uma vez assistem passivamente os que, com o voto popular, chegam ao poder para se beneficiar dele. Tem sido assim nos últimos anos.

Antigamente, essas coisas aconteciam sempre com pessoas ligadas ao partido do governo ou aliados. PDS e PFL foram campeões de casos parecidos. Os anões do orçamento são um desses casos. De um tempo para cá, parece que os partidos que passaram anos condenando a prática da pilhagem do dinheiro público, ou privado por vias públicas, resolveram também entrar na dança. O mensalão do PT é um exemplo emblemático. O deputado Paulo Pereira, o Paulinho da Força, é do PDT, partido do saudoso Brizola, que se estivesse vivo já o teria afastado da legenda. Não é admissível que condutas pessoais levem junto o nome do partido. Dias atrás, o STE deliberou que, em casos de infidelidade partidária, o mandato pertence ao partido. Embora absolvido pelo Conselho de Ética, o estrago para a imagem do PDT, um dos poucos partidos ainda sérios, foi enorme.

Se Paulinho não perdeu o mandato, que perca a sigla, que vá se abrigar em outra legenda mais adequada, com mais experiência nessa matéria de escândalos, desvio de dinheiro etc. Que tal o PMDB?

 


 

 

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