O ex-governador Anthony Garotinho é mesmo
imprevisível. Acaba de se filiar ao Partido da República (PR) e,
ato contínuo, lançou-se candidato ao Governo do Estado. Quem o
conhece ou conviveu com ele sabe muito bem como funciona a sua
impetuosidade, aliás, é só olhar para trás. Garotinho saiu de
Campos, foi vereador lá, vendia umas coisinhas pela rua quando
conseguiu fazer um programa de rádio. Um amigo o levou ao então
governador Leonel Brizola, que o ajudou, mandando veicular
propaganda do Banerj no programa do jovem radialista.
Garotinho virou prefeito, obteve índices de
aprovação popular na casa dos 80%, cresceu, veio para o Rio como
secretário de Estado e ganhou na marra a indicação para ser o
candidato do PDT ao governo do Estado. Perdeu a eleição para
Marcello Alencar, mas preparou-se para a segunda, que ganharia
de César Maia. Não foi uma tarefa fácil. César, na época, estava
no auge. Obstinado e incansável, Garotinho foi construindo um
caminho seu, particular.
Veio a eleição para presidente da República,
em 2002, e Garotinho, além de sair candidato pelo PSB, lançou
sua mulher, Rosinha, para o governo estadual numa manobra pra lá
de inusitada. Eram dois objetivos difíceis de serem alcançados,
cada um com suas especificidades. Garotinho, que durante a
campanha chegou a vender bônus a um real na Avenida Rio Branco,
ficou em terceiro lugar, à frente do deputado Ciro Gomes, do
PPS, que tinha uma estrutura de campanha dez vezes maior do que
a dele, mas que acabou num modestíssimo quarto lugar. Foi um
verdadeiro feito. Feito maior ainda veio com a vitória de
Rosinha, que não só ganhou a eleição no primeiro turno, como
ganhou em todos os 90 municípios do Estado do Rio.
Uma coisa impressionante a hegemonia que o
casal ameaçava implantar, assustava até os mais experientes, que
não viam como poderiam frear o crescente político do clã
Garotinho no Estado do Rio. Mas, talvez pela velocidade com que
as coisas foram acontecendo, com pouco tempo para maior
maturação, o castelo começou a ruir. Sendo marido da governadora
e ex-governador, era impossível sua mulher não sofrer pressões
suas e, na maioria das vezes, ceder às interferências. Com idéia
fixa de ser candidato novamente à Presidência, Garotinho fez do
governo Rosinha um palanque para objetivos pessoais, e todo
mundo sabe que a vaidade é a maior inimiga do administrador.
O PMDB que abrigara Garotinho negociava seu
apoio com o presidente Lula, independentemente das aspirações de
seus filiados. Sempre foi assim e continua até hoje. Garotinho,
então, resolveu entrar em rota de colisão com o governo federal.
Inviabilizou por completo o governo da mulher e criou enorme
confusão no partido. Envolveu-se em questões mais obscuras que
acabaram lhe rendendo alguns processos que tramitam até hoje.
Com a frustração de não ser candidato e ver
seu nome passar do noticiário político e para o policial,
Garotinho foi ficando menor. Agarrou-se na eleição de um
deputado amigo, de apelido Pudim, como se fora sua tábua de
salvação. Pudim dizia, em sua propaganda, que seria a "voz" de
Garotinho em Brasília. Por conta dessa campanha, o casal
incorreu em várias irregularidades, do ponto de vista da lei
eleitoral. Chegou a transferir a sede do governo para Campos em
plena campanha. Acabou conseguindo o que queria, elegeu o tal
Pudim para deputado federal. Costumava brincar, dizendo que seu
afilhado tinha feito mais votos do que o deputado Rodrigo Maia,
filho de César Maia. Uma vitória de pirro. A voz de Pudim, até
hoje, nunca foi ouvida na Câmara dos Deputados, pois faz um
mandato modestíssimo.
De lá para cá, o ex-governador Garotinho se
dedicou a dois programas de rádio, continua indo a cultos
evangélicos e, ano passado, emplacou sua filha Clarissa
Garotinho como vereadora pelo PMDB, com mais de 40 mil votos, e
Rosinha prefeita de Campos, pelo mesmo partido.
Há uma frase que o colunista não sabe quem é
o autor que diz "não existe político morto, mesmo que pareça
estar". É o caso de Garotinho. Esta semana, na acanhada
cerimônia de filiação ao modesto PR, ele provou que a idéia
acima é verdadeira. Deve ter aprendido em sua convivência com
Brizola, que por sua vez costumava dizer: "Se o cavalo passar
selado eu monto". Resta saber se ainda existe espaço para
Garotinho.