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Edição 719 -  Semana de 27 de junho a 3 de julho de 2009
..::data e hora::..    00:00:00

Política   Leonardo Aguiar   andradeaguiar@uol.com.br


Recomeço

O ex-governador Anthony Garotinho é mesmo imprevisível. Acaba de se filiar ao Partido da República (PR) e, ato contínuo, lançou-se candidato ao Governo do Estado. Quem o conhece ou conviveu com ele sabe muito bem como funciona a sua impetuosidade, aliás, é só olhar para trás. Garotinho saiu de Campos, foi vereador lá, vendia umas coisinhas pela rua quando conseguiu fazer um programa de rádio. Um amigo o levou ao então governador Leonel Brizola, que o ajudou, mandando veicular propaganda do Banerj no programa do jovem radialista.

Garotinho virou prefeito, obteve índices de aprovação popular na casa dos 80%, cresceu, veio para o Rio como secretário de Estado e ganhou na marra a indicação para ser o candidato do PDT ao governo do Estado. Perdeu a eleição para Marcello Alencar, mas preparou-se para a segunda, que ganharia de César Maia. Não foi uma tarefa fácil. César, na época, estava no auge. Obstinado e incansável, Garotinho foi construindo um caminho seu, particular.

Veio a eleição para presidente da República, em 2002, e Garotinho, além de sair candidato pelo PSB, lançou sua mulher, Rosinha, para o governo estadual numa manobra pra lá de inusitada. Eram dois objetivos difíceis de serem alcançados, cada um com suas especificidades. Garotinho, que durante a campanha chegou a vender bônus a um real na Avenida Rio Branco, ficou em terceiro lugar, à frente do deputado Ciro Gomes, do PPS, que tinha uma estrutura de campanha dez vezes maior do que a dele, mas que acabou num modestíssimo quarto lugar. Foi um verdadeiro feito. Feito maior ainda veio com a vitória de Rosinha, que não só ganhou a eleição no primeiro turno, como ganhou em todos os 90 municípios do Estado do Rio.

Uma coisa impressionante a hegemonia que o casal ameaçava implantar, assustava até os mais experientes, que não viam como poderiam frear o crescente político do clã Garotinho no Estado do Rio. Mas, talvez pela velocidade com que as coisas foram acontecendo, com pouco tempo para maior maturação, o castelo começou a ruir. Sendo marido da governadora e ex-governador, era impossível sua mulher não sofrer pressões suas e, na maioria das vezes, ceder às interferências. Com idéia fixa de ser candidato novamente à Presidência, Garotinho fez do governo Rosinha um palanque para objetivos pessoais, e todo mundo sabe que a vaidade é a maior inimiga do administrador.

O PMDB que abrigara Garotinho negociava seu apoio com o presidente Lula, independentemente das aspirações de seus filiados. Sempre foi assim e continua até hoje. Garotinho, então, resolveu entrar em rota de colisão com o governo federal. Inviabilizou por completo o governo da mulher e criou enorme confusão no partido. Envolveu-se em questões mais obscuras que acabaram lhe rendendo alguns processos que tramitam até hoje.

Com a frustração de não ser candidato e ver seu nome passar do noticiário político e para o policial, Garotinho foi ficando menor. Agarrou-se na eleição de um deputado amigo, de apelido Pudim, como se fora sua tábua de salvação. Pudim dizia, em sua propaganda, que seria a "voz" de Garotinho em Brasília. Por conta dessa campanha, o casal incorreu em várias irregularidades, do ponto de vista da lei eleitoral. Chegou a transferir a sede do governo para Campos em plena campanha. Acabou conseguindo o que queria, elegeu o tal Pudim para deputado federal. Costumava brincar, dizendo que seu afilhado tinha feito mais votos do que o deputado Rodrigo Maia, filho de César Maia. Uma vitória de pirro. A voz de Pudim, até hoje, nunca foi ouvida na Câmara dos Deputados, pois faz um mandato modestíssimo.

De lá para cá, o ex-governador Garotinho se dedicou a dois programas de rádio, continua indo a cultos evangélicos e, ano passado, emplacou sua filha Clarissa Garotinho como vereadora pelo PMDB, com mais de 40 mil votos, e Rosinha prefeita de Campos, pelo mesmo partido.

Há uma frase que o colunista não sabe quem é o autor que diz "não existe político morto, mesmo que pareça estar". É o caso de Garotinho. Esta semana, na acanhada cerimônia de filiação ao modesto PR, ele provou que a idéia acima é verdadeira. Deve ter aprendido em sua convivência com Brizola, que por sua vez costumava dizer: "Se o cavalo passar selado eu monto". Resta saber se ainda existe espaço para Garotinho.

 

 



 

 

 

 

 

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