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Edição 748 - Semana de 16 a 23 de janeiro de 2010
..::data e hora::..    00:00:00

Política   Leonardo Aguiar   politica@folhanit.com.br


Produtos do meio

A produção do Legislativo niteroiense tem sido notícia ultimamente. Não porque tenha melhorado, infelizmente, mas exatamente o contrário, piorou. Nem vamos falar aqui dos vereadores, que quase nunca estão nas sessões, são pouco interessados em discussões mais acaloradas, que exijam mais recursos pessoais ou intelectuais. Em noticiário recente, dois vereadores, entre outros, foram apresentados como os mais ausentes: Beto da Pipa (PMDB) e Rodrigo Farah (PRP). Ambos integram o grupo de 14 vereadores que, no decorrer de 2009, produziu apenas 35%, índice que se fosse dividido igualmente por cada um daria míseros 2.5%, um rendimento perto do ridículo.

Em resposta ao que foi noticiado, alguns vereadores resolveram justificar suas ações ou a falta delas. O vereador Rodrigo Farah, por exemplo, declarou que o importante "não é a quantidade, mas a qualidade". Referiu-se à qualidade do projeto apresentado e citou o de número 2.650, de sua autoria e que ele reputa como sendo o mais importante de toda a legislatura, o que estabeleceu a instalação de álcool gel em estabelecimentos comerciais. Farah disse ainda que a propagação da gripe suína foi evitada por conta desse seu projeto. Puxar a brasa para a própria sardinha é do ser humano, é a lei da sobrevivência, mas para um parlamentar que tem uma formação acadêmica como o vereador, a afirmação soa um tanto quanto exagerada. A questão do álcool gel foi determinada pela Secretaria de Saúde do Estado e encampada pela população, comércio e outros segmentos da sociedade por puro bom senso e não por força de um projeto do Legislativo municipal.

Outros vereadores também falaram de seus projetos, alguns se consideram perseguidos pelo Executivo, como o caso do vereador Renatinho (PSOL), integrante do rol dos quase improdutivos.

Na outra ponta, o grupo de cinco vereadores restantes, responsável por 65% da produção da Casa e formado por Felipe Peixoto (PDT), Waldeck Carneiro (PT), João Gustavo (PMDB), Vítor Júnior (PT) e Emanuel Rocha (PDT), os três últimos em primeiro mandato, chama a atenção pelo volume de projetos de Felipe Peixoto, que pelas contas feitas por seu gabinete, é responsável por pelo menos 25% da produção. O cálculo pode até ser considerado um tanto exagerado, não fosse, ele, Felipe, o vereador mais votado na última eleição, com mais de 8 mil votos. Portanto, nada mais natural.

A produção dos legislativos brasileiros foi e será sempre tema de discussões acaloradas que vão desde a necessidade real de existirem ao predicado intelectual dos vereadores, o que resulta na baixíssima qualidade dos projetos apresentados, e a obediência ao Executivo, o que se desvirtua completamente do objetivo de uma representação legislativa.

O fato de o prefeito Jorge Roberto Silveira ter aprovado mais projetos do que os apresentados pelos próprios vereadores dá a exata dimensão do que se está falando. Dos cerca de 5 mil municípios brasileiros, mais de 40% vive de repasses federais e estaduais, receita que custeia mais de 90% das suas despesas, o que é inacreditável. Ou seja: mais de três mil municípios brasileiros não conseguem ter arrecadação para sustentar uma Câmara Municipal, mas mesmo assim elegem vereadores. É bom lembrar que nenhum deles trabalha de graça.

Na verdade, a culpa é do sistema político que vigora no Brasil. Sem o voto distrital e sem o voto facultativo, vamos continuar reclamando dos nossos representantes espalhados não só pelos legislativos do País afora, mas também pelos executivos. Os vereadores de Niterói não fogem à regra e nem são exceção no universo municipal brasileiro. São apenas produtos do meio em que vivem.

 


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