Nos últimos dias, acompanhamos consternados
as consequências dos terremotos que vitimaram milhares de
pessoas no Haiti. O pequeno país caribenho, com histórico de
golpes e ditaduras, desestruturado dos pontos de vista social,
político e econômico, estava se reerguendo lentamente com o
auxílio da Organização das Nações Unidas (ONU) desde o início da
década. Avalia-se que a tragédia deva ser uma das maiores de que
se tem notícia no mundo. Milhões de desabrigados, milhares de
feridos e órfãos, mais de 100 mil mortos e, um povo já muito
sofrido, agora perplexo e desesperado.
A comoção e a dor que todos sentimos, a
solidariedade internacional e as diversas campanhas em auxílio
do povo haitiano revelam a humanidade que ainda persiste em um
mundo tão marcado pela indiferença, pela competição desenfreada,
pelo descaso com o sofrimento dos mais pobres e da natureza.
Ficamos mais perto da tragédia, quando chegou
ao Brasil a notícia da morte de D. Zilda Arns, coordenadora da
Pastoral da Criança. Médica pediatra, dedicava-se nos últimos 25
anos a um extraordinário serviço de mobilização e auxilio às
crianças brasileiras. A sua liderança sensibilizou mais de 250
mil voluntários (as) que permanentemente visitam casas e
comunidades pobres para combater a desnutrição no país. Sua
contribuição foi decisiva para diminuição das tristes
estatísticas da mortalidade materno-infantil.
Zilda Arns Neumann estava no Haiti em reunião
da Conferência de Religiosos daquele país para levar a
experiência da Pastoral da Criança e incentivar o árduo trabalho
dos missionários na região. Morreu cumprindo fielmente sua
missão, exercendo corajosamente a caridade, a serviço dos mais
pobres e excluídos. Seu irmão, referência da defesa da
democracia e dos direitos humanos no Brasil, D. Paulo Evaristo
Arns, afirmou que ela teve uma "morte bonita, pois morreu no
cumprimento de uma missão em que sempre acreditou".
Lembro-me de D. Zilda quando esteve na cidade
para receber o título de cidadania niteroiense que havia
proposto, em 2004. Recordo-me do seu rosto e sorriso tranquilo,
sereno e acolhedor. Sua fala profética e firme na defesa das
causas justas e dignas. A energia contagiante me emocionou e
levou às lágrimas muitos daqueles que estavam na solenidade. Uma
bem-aventurada: "Felizes os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados; felizes os que são misericordiosos,
porque encontrarão misericórdia; felizes os puros de coração,
porque verão a Deus". Sua opção, vida e martírio são um exemplo
para todos nós.