Folha de Niterói Online - Artigo - Edição 618
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Edição 749 - Semana de 23 a 29 de janeiro de 2010
..::data e hora::..    00:00:00

Artigo  redacao@folhanit.com.br


O exemplo de Zilda Arns

Rodrigo Neves*

Nos últimos dias, acompanhamos consternados as consequências dos terremotos que vitimaram milhares de pessoas no Haiti. O pequeno país caribenho, com histórico de golpes e ditaduras, desestruturado dos pontos de vista social, político e econômico, estava se reerguendo lentamente com o auxílio da Organização das Nações Unidas (ONU) desde o início da década. Avalia-se que a tragédia deva ser uma das maiores de que se tem notícia no mundo. Milhões de desabrigados, milhares de feridos e órfãos, mais de 100 mil mortos e, um povo já muito sofrido, agora perplexo e desesperado.

A comoção e a dor que todos sentimos, a solidariedade internacional e as diversas campanhas em auxílio do povo haitiano revelam a humanidade que ainda persiste em um mundo tão marcado pela indiferença, pela competição desenfreada, pelo descaso com o sofrimento dos mais pobres e da natureza.

Ficamos mais perto da tragédia, quando chegou ao Brasil a notícia da morte de D. Zilda Arns, coordenadora da Pastoral da Criança. Médica pediatra, dedicava-se nos últimos 25 anos a um extraordinário serviço de mobilização e auxilio às crianças brasileiras. A sua liderança sensibilizou mais de 250 mil voluntários (as) que permanentemente visitam casas e comunidades pobres para combater a desnutrição no país. Sua contribuição foi decisiva para diminuição das tristes estatísticas da mortalidade materno-infantil.

Zilda Arns Neumann estava no Haiti em reunião da Conferência de Religiosos daquele país para levar a experiência da Pastoral da Criança e incentivar o árduo trabalho dos missionários na região. Morreu cumprindo fielmente sua missão, exercendo corajosamente a caridade, a serviço dos mais pobres e excluídos. Seu irmão, referência da defesa da democracia e dos direitos humanos no Brasil, D. Paulo Evaristo Arns, afirmou que ela teve uma "morte bonita, pois morreu no cumprimento de uma missão em que sempre acreditou".

Lembro-me de D. Zilda quando esteve na cidade para receber o título de cidadania niteroiense que havia proposto, em 2004. Recordo-me do seu rosto e sorriso tranquilo, sereno e acolhedor. Sua fala profética e firme na defesa das causas justas e dignas. A energia contagiante me emocionou e levou às lágrimas muitos daqueles que estavam na solenidade. Uma bem-aventurada: "Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia; felizes os puros de coração, porque verão a Deus". Sua opção, vida e martírio são um exemplo para todos nós.

* Deputado estadual

 

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