{"id":13123,"date":"2026-10-07T14:28:54","date_gmt":"2026-10-07T17:28:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.folhanit.com.br\/?p=13123"},"modified":"2026-10-07T14:30:44","modified_gmt":"2026-10-07T17:30:44","slug":"a-arte-de-ser-pai-sob-a-otica-das-neurociencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.folhanit.com.br\/?p=13123","title":{"rendered":"A arte de ser pai sob a \u00f3tica das neuroci\u00eancias"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"font-size: 8pt;\"><em><strong>Por Dr. Marco Orsini, pai, neurologista e coordenador do Centro de Estudos do Niter\u00f3i D\u2019Or<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p>Talvez a pergunta mais antiga do ser humano n\u00e3o seja \u201cquanto tempo vou viver?\u201d, mas \u201co que far\u00e1 minha exist\u00eancia ter valido a pena?\u201d. Desde que tomou consci\u00eancia da pr\u00f3pria finitude, o homem procura respostas para uma inquieta\u00e7\u00e3o que nenhuma ci\u00eancia conseguiu encerrar completamente: o que fazemos com o breve intervalo entre o nascimento e a morte?<\/p>\n<p>Vivemos sabendo que vamos morrer, mas frequentemente organizamos a vida como se tiv\u00e9ssemos tempo infinito. Constru\u00edmos carreiras, acumulamos bens, buscamos reconhecimento e desejamos ser lembrados. H\u00e1, nessa busca, algo profundamente humano: o desejo de que nossa passagem pelo mundo n\u00e3o seja completamente apagada pelo tempo.<\/p>\n<p>\u00c9 diante dessa consci\u00eancia que a paternidade adquire uma dimens\u00e3o quase filos\u00f3fica. Um filho nos coloca diante do futuro de uma maneira diferente. Antes dele, pensamos no futuro como aquilo que ainda iremos viver. Depois dele, come\u00e7amos a enxerg\u00e1-lo como aquilo que continuar\u00e1 existindo quando j\u00e1 n\u00e3o estivermos aqui. O futuro passa a ter um rosto.<\/p>\n<p>Hannah Arendt escreveu sobre a natalidade como uma das condi\u00e7\u00f5es fundamentais da exist\u00eancia humana: cada nascimento representa a possibilidade de um novo come\u00e7o. Uma crian\u00e7a n\u00e3o chega apenas para continuar a humanidade. Ela traz ao mundo algo que nunca existiu exatamente daquela forma.<\/p>\n<p>Essa talvez seja uma das maiores responsabilidades da paternidade: compreender que um filho n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma continua\u00e7\u00e3o de n\u00f3s. Ele carrega nosso DNA, nossa hist\u00f3ria e, em alguma medida, nossa mem\u00f3ria biol\u00f3gica, mas n\u00e3o nos pertence. \u00c9 uma nova possibilidade de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>O filho n\u00e3o \u00e9 propriedade do pai, nem extens\u00e3o de suas ambi\u00e7\u00f5es ou um projeto para corrigir os fracassos que ele pr\u00f3prio viveu. \u00c9 algu\u00e9m que recebeu o direito de construir uma hist\u00f3ria que n\u00e3o podemos controlar. Talvez o verdadeiro amor paterno comece justamente quando compreendemos isso.<\/p>\n<p>Durante muito tempo, a sociedade ensinou ao homem que sua for\u00e7a deveria estar associada ao dom\u00ednio, \u00e0 autoridade e \u00e0 capacidade de n\u00e3o demonstrar fragilidade. A paternidade, entretanto, pode ensinar o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>S\u00f3crates associava a sabedoria ao reconhecimento da pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia. Existe algo profundamente socr\u00e1tico na experi\u00eancia de ser pai: quanto mais um homem observa um filho crescer, mais percebe o quanto n\u00e3o sabe.<\/p>\n<p>Ele pode ensinar uma crian\u00e7a a caminhar, mas n\u00e3o pode escolher todos os caminhos que ela percorrer\u00e1. Pode transmitir valores, mas n\u00e3o controlar todas as escolhas. Pode proteger, mas n\u00e3o eliminar o sofrimento. Pode amar profundamente, mas n\u00e3o viver a vida por ela. A paternidade \u00e9, portanto, tamb\u00e9m uma escola de humildade.<\/p>\n<p>Nietzsche escreveu sobre a necessidade de nos tornarmos aquilo que somos. Talvez um pai precise aprender justamente a n\u00e3o transformar o filho naquilo que gostaria que ele fosse, mas criar condi\u00e7\u00f5es para que descubra quem pode ser. Educar n\u00e3o \u00e9 fabricar uma identidade. \u00c9 ajudar algu\u00e9m a encontrar a pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Existe uma tenta\u00e7\u00e3o silenciosa na paternidade: querer que os filhos confirmem nossas escolhas, cren\u00e7as, gostos e certezas. Mas talvez o maior sucesso de um pai seja olhar para um filho adulto e perceber que ele se tornou algu\u00e9m que pensa por conta pr\u00f3pria, que consegue dizer \u201cn\u00e3o\u201d, amar sem perder a pr\u00f3pria identidade e partir sem deixar de saber onde pode voltar.<\/p>\n<p>Criar filhos \u00e9, nesse sentido, preparar-se para perd\u00ea-los aos poucos. Perde-se a crian\u00e7a quando ela aprende a caminhar, a inf\u00e2ncia quando come\u00e7a a descobrir o mundo e a adolesc\u00eancia quando surge a autonomia. Finalmente, perde-se a necessidade que o filho tinha de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Mas talvez isso n\u00e3o seja uma perda. Talvez seja a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o de miss\u00e3o cumprida.<\/p>\n<p>Heidegger nos lembra que a exist\u00eancia humana \u00e9 insepar\u00e1vel da consci\u00eancia da finitude. Somos seres lan\u00e7ados no tempo, caminhando inevitavelmente em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 morte. A paternidade acrescenta uma dimens\u00e3o curiosa a essa experi\u00eancia: come\u00e7amos a enxergar nossa pr\u00f3pria finitude atrav\u00e9s da continuidade de outra pessoa.<\/p>\n<p>O filho cresce enquanto n\u00f3s envelhecemos. Enquanto ele descobre o mundo, percebemos que j\u00e1 conhecemos algumas de suas despedidas. \u00c9 uma das experi\u00eancias mais belas e dolorosas do tempo: ver algu\u00e9m come\u00e7ar a vida enquanto percebemos que a nossa j\u00e1 atravessou grande parte do caminho.<\/p>\n<p>Talvez seja justamente a\u00ed que o homem compreenda que n\u00e3o precisa vencer a morte para transcender. N\u00e3o somos eternos, mas podemos participar daquilo que continuar\u00e1 depois de n\u00f3s. Uma palavra pode sobreviver, um gesto pode ser repetido, uma ideia pode atravessar gera\u00e7\u00f5es, e um amor pode permanecer dentro de algu\u00e9m muito depois que aquele que amou j\u00e1 n\u00e3o esteja presente.<\/p>\n<p>A neuroci\u00eancia ajuda a compreender parte desse fen\u00f4meno. O v\u00ednculo parental est\u00e1 relacionado \u00e0 plasticidade cerebral e a altera\u00e7\u00f5es em sistemas envolvidos com motiva\u00e7\u00e3o, aten\u00e7\u00e3o, empatia, processamento emocional e comportamento de cuidado. O c\u00e9rebro tamb\u00e9m aprende a ser pai.<\/p>\n<p>Mas existe uma fronteira fascinante entre aquilo que a ci\u00eancia consegue explicar e aquilo que permanece como experi\u00eancia humana. Podemos estudar a ocitocina, os circuitos de recompensa e as redes neurais relacionadas ao apego, mas nenhum exame de imagem consegue mostrar o significado de um pai olhando para o filho dormindo. Nenhum marcador biol\u00f3gico consegue medir a ang\u00fastia de v\u00ea-lo sofrer.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia pode explicar mecanismos. A filosofia pergunta pelo significado. E o amor talvez exista justamente nesse espa\u00e7o entre as duas coisas.<\/p>\n<p>Emmanuel Levinas colocou o encontro com o outro no centro da \u00e9tica. Talvez um filho seja uma das experi\u00eancias mais radicais dessa convoca\u00e7\u00e3o. Diante de uma crian\u00e7a, o homem percebe que sua liberdade n\u00e3o significa apenas fazer aquilo que deseja, mas tamb\u00e9m assumir responsabilidade pelo que suas escolhas produzem na vida de outro ser humano.<\/p>\n<p>Um pai n\u00e3o oferece apenas alimento, prote\u00e7\u00e3o ou educa\u00e7\u00e3o. Oferece presen\u00e7a. E presen\u00e7a talvez seja uma das formas mais raras de amor em uma \u00e9poca em que muitos parecem estar fisicamente pr\u00f3ximos e emocionalmente distantes.<\/p>\n<p>Os filhos observam. Observam como o pai reage quando perde, como trata quem n\u00e3o pode lhe oferecer nada, como pede desculpas, enfrenta o medo, fala dos outros e se comporta quando ningu\u00e9m est\u00e1 olhando. E, sem perceber, aprendem.<\/p>\n<p>Por isso, talvez o legado de um homem n\u00e3o esteja naquilo que ele diz aos filhos, mas naquilo que eles percebem quando olham para ele. Um pai pode deixar dinheiro, im\u00f3veis, t\u00edtulos e fotografias, mas pode deixar algo mais profundo: uma maneira de existir.<\/p>\n<p>Pode ensinar, pelo exemplo, que for\u00e7a n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia de medo; intelig\u00eancia n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia de d\u00favida; pedir ajuda n\u00e3o \u00e9 fraqueza; pedir perd\u00e3o n\u00e3o diminui ningu\u00e9m; amar n\u00e3o significa possuir; poder n\u00e3o significa dominar. E que ser homem talvez seja menos sobre provar alguma coisa ao mundo e mais sobre cuidar daquilo que o mundo colocou sob sua responsabilidade.<\/p>\n<p>No final, os maiores t\u00edtulos de um homem talvez n\u00e3o sejam aqueles escritos depois de seu nome. Podem ser os nomes que algu\u00e9m pronuncia quando sente saudade. As hist\u00f3rias que os filhos contar\u00e3o. A maneira como algu\u00e9m tratar\u00e1 o pr\u00f3prio filho porque um dia aprendeu com ele a import\u00e2ncia de cuidar.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que o legado se torna misterioso. N\u00e3o podemos controlar aquilo que deixamos. Podemos apenas oferecer. O filho receber\u00e1, interpretar\u00e1, transformar\u00e1 e talvez at\u00e9 rejeite parte daquilo que recebeu. E isso tamb\u00e9m faz parte da liberdade.<\/p>\n<p>O amor verdadeiro n\u00e3o exige reprodu\u00e7\u00e3o. Exige continuidade daquilo que existe de essencial. N\u00e3o queremos que nossos filhos sejam iguais a n\u00f3s. Queremos que sejam melhores do que fomos capazes de ser. Talvez essa seja a forma mais generosa de transcend\u00eancia que um homem pode experimentar.<\/p>\n<p>Para mim, esse pensamento tem dois nomes: Jo\u00e3o e Bento. Dois filhos que carregam parte de minha hist\u00f3ria, mas que n\u00e3o s\u00e3o minha propriedade. Dois seres humanos que representam, ao mesmo tempo, continuidade e ruptura. Continuidade porque carregam parte de meu DNA; ruptura porque ter\u00e3o suas pr\u00f3prias escolhas.<\/p>\n<p>Eles s\u00e3o parte de minha hist\u00f3ria, mas n\u00e3o s\u00e3o o cap\u00edtulo final dela. S\u00e3o duas hist\u00f3rias novas. E talvez seja justamente isso que torne a paternidade t\u00e3o extraordin\u00e1ria: perceber que a vida nos oferece a possibilidade de participar do in\u00edcio de uma hist\u00f3ria que jamais poderemos escrever completamente.<\/p>\n<p>Talvez um dia Jo\u00e3o e Bento leiam estas palavras quando eu j\u00e1 estiver envelhecido. Talvez tenham suas pr\u00f3prias fam\u00edlias, filhos, d\u00favidas e medos. E talvez ent\u00e3o compreendam algo que somente o tempo ensina: que os pais tamb\u00e9m s\u00e3o passageiros, que tamb\u00e9m tiveram medo, erraram e tentaram compreender a vida.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s do homem que todos conhecem como neurologista, professor ou profissional, existia simplesmente um pai tentando fazer aquilo que todos n\u00f3s fazemos diante do mist\u00e9rio da exist\u00eancia: amar da melhor maneira que conseguimos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o e Bento, voc\u00eas s\u00e3o parte do que h\u00e1 de mais profundo em mim. S\u00e3o parte do meu DNA, da minha hist\u00f3ria e daquilo que desejo deixar de melhor neste mundo. Mas nunca quis que fossem a continua\u00e7\u00e3o das minhas expectativas. Quero que sejam a continua\u00e7\u00e3o de voc\u00eas mesmos. Que tenham coragem para pensar, liberdade para escolher e humildade para reconhecer que a vida jamais ser\u00e1 completamente compreendida. Se algum dia voc\u00eas perguntarem qual foi o maior legado que deixei, talvez a resposta n\u00e3o esteja em nada que constru\u00ed profissionalmente. Talvez esteja simplesmente no amor que consegui oferecer. E, se um dia voc\u00eas tiverem seus pr\u00f3prios filhos, talvez compreendam que fomos n\u00f3s, seus pais, que pensamos estar ensinando voc\u00eas a viver, quando, na verdade, foram voc\u00eas que nos ensinaram o sentido mais profundo.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a deles me fez olhar para a vida com menos rigidez e muito mais responsabilidade. Minha conversa com Deus tamb\u00e9m mudou. Hoje, no fundo, eu n\u00e3o pe\u00e7o que Ele retire deles as dificuldades, porque sei que isso seria imposs\u00edvel e talvez nem fosse desej\u00e1vel. Pe\u00e7o apenas que, diante dos bilh\u00f5es de deveres que a sociedade vai lhes impor, eles tamb\u00e9m saibam reconhecer e desfrutar dos seus direitos; que encontrem pessoas boas pelo caminho, tenham um m\u00ednimo de paz, muita coragem e, acima de tudo, sa\u00fade.<\/p>\n<p>Sobreviver \u00e0 vida n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Haver\u00e1 perdas, escolhas, frustra\u00e7\u00f5es, injusti\u00e7as e momentos em que o mundo parecer\u00e1 pesado demais. E eu n\u00e3o poderei viver essas dores por eles. O que posso fazer \u00e9 tentar prepar\u00e1-los para atravess\u00e1-las sem perder a sensibilidade, a dignidade e a capacidade de amar. Talvez essa seja a minha maior ora\u00e7\u00e3o como pai: que Jo\u00e3o e Bento tenham for\u00e7a para enfrentar o mundo sem permitir que o mundo endure\u00e7a seus cora\u00e7\u00f5es. E que, mesmo quando a vida lhes exigir muito, eles nunca se esque\u00e7am de que existir tamb\u00e9m pode ser bonito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Dr. Marco Orsini, pai, neurologista e coordenador do Centro de Estudos do Niter\u00f3i D\u2019Or Talvez a pergunta mais antiga do ser humano n\u00e3o seja \u201cquanto tempo vou viver?\u201d, mas \u201co que far\u00e1 minha exist\u00eancia ter valido a pena?\u201d. 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