{"id":13169,"date":"2026-10-20T12:20:31","date_gmt":"2026-10-20T15:20:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.folhanit.com.br\/?p=13169"},"modified":"2026-10-20T12:20:31","modified_gmt":"2026-10-20T15:20:31","slug":"o-saber-das-maos-a-sabedoria-do-coracao-aqueles-que-me-ensinaram-a-tratar-e-a-amar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.folhanit.com.br\/?p=13169","title":{"rendered":"O saber das m\u00e3os, a sabedoria do cora\u00e7\u00e3o: aqueles que me ensinaram a tratar e a amar"},"content":{"rendered":"<p><em><strong><span style=\"font-size: 8pt;\">Imagem ilustrativa \/ Produzida com apoio de IA<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_2376\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2376\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-thumbnail wp-image-2376\" src=\"https:\/\/www.folhanit.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Marco-e1531871297863-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/www.folhanit.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Marco-e1531871297863-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.folhanit.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Marco-e1531871297863-440x440.jpg 440w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><p id=\"caption-attachment-2376\" class=\"wp-caption-text\">Por Marco Orsini MD PhD \u2013 m\u00e9dico neurologista e professor<\/p><\/div>\n<p>Existem pessoas que passam por nossa vida e deixam conhecimentos; outras deixam lembran\u00e7as. H\u00e1, por\u00e9m, aquelas que nos transformam t\u00e3o profundamente que continuam presentes, mesmo d\u00e9cadas depois, na maneira como pensamos, sentimos e cuidamos. Ao olhar para minha trajet\u00f3ria na Medicina e na Neurologia, reconhe\u00e7o meus professores como parte essencial daquilo que me tornei. Eles n\u00e3o me ensinaram apenas a compreender o sistema nervoso, reconhecer doen\u00e7as ou formular diagn\u00f3sticos. Participaram da constru\u00e7\u00e3o de algo muito maior: minha maneira de enxergar o ser humano. Talvez, quando jovens, ainda n\u00e3o compreend\u00eassemos inteiramente a dimens\u00e3o de seus ensinamentos. Est\u00e1vamos ocupados em aprender a profiss\u00e3o, sem perceber que, silenciosamente, tamb\u00e9m aprend\u00edamos a ser pessoas melhores.<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles compreendia que o car\u00e1ter se constr\u00f3i pelas escolhas que fazemos e pelas virtudes que exercitamos diariamente. Na Medicina, essa ideia ganha uma profundidade particular: n\u00e3o nos tornamos bons m\u00e9dicos apenas porque acumulamos conhecimentos, mas porque aprendemos a transformar esse conhecimento em responsabilidade, respeito e cuidado. Meus professores me ensinaram que a excel\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 somente na precis\u00e3o do diagn\u00f3stico ou na seguran\u00e7a de uma conduta, mas tamb\u00e9m na maneira como nos aproximamos de algu\u00e9m que sofre. Ensinaram-me que a compet\u00eancia cient\u00edfica precisa caminhar ao lado da humildade, que a intelig\u00eancia perde parte de sua grandeza quando se afasta da generosidade e que a verdadeira autoridade n\u00e3o precisa diminuir ningu\u00e9m para se afirmar.<\/p>\n<p>Emmanuel Levinas nos convida a pensar na responsabilidade que nasce do encontro com o outro. Na rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, esse encontro ultrapassa qualquer defini\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica: diante de n\u00f3s, existe algu\u00e9m que deposita confian\u00e7a, compartilha fragilidades e espera ser reconhecido para al\u00e9m de sua doen\u00e7a. Foi com meus mestres que aprendi, de diferentes maneiras, a import\u00e2ncia dessa responsabilidade. Aprendi que ouvir \u00e9 mais do que esperar a vez de falar; que explicar \u00e9 uma forma de respeitar; e que acolher n\u00e3o significa abandonar a ci\u00eancia, mas permitir que ela cumpra sua finalidade mais nobre. Eles me ensinaram a tratar a doen\u00e7a, mas, sobretudo, me ensinaram a amar quem sofre. N\u00e3o falo de um amor ing\u00eanuo ou sentimental, mas daquele que se manifesta na presen\u00e7a, na escuta, na delicadeza e na decis\u00e3o de nunca permitir que a rotina transforme a dor alheia em algo banal.<\/p>\n<p>Na Neurologia, essas li\u00e7\u00f5es adquirem uma dimens\u00e3o quase existencial. Estudamos o \u00f3rg\u00e3o que participa da constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, da linguagem, dos movimentos, das emo\u00e7\u00f5es e da identidade. Entretanto, nenhum exame traduz inteiramente a ang\u00fastia de quem perde a autonomia, a dor de uma fam\u00edlia diante de uma doen\u00e7a progressiva ou o sil\u00eancio de algu\u00e9m que j\u00e1 n\u00e3o consegue expressar o que sente. Albert Schweitzer, ao defender uma profunda rever\u00eancia pela vida, ajuda-nos a compreender que a dignidade humana n\u00e3o diminui com a incapacidade, a depend\u00eancia ou a aus\u00eancia de cura. Meus professores contribu\u00edram para que eu entendesse que nem sempre podemos devolver a sa\u00fade, mas podemos preservar a dignidade; nem sempre podemos modificar o destino biol\u00f3gico de uma doen\u00e7a, mas podemos modificar profundamente a maneira como algu\u00e9m atravessa esse caminho. Quando a ci\u00eancia encontra seus limites, o cuidado n\u00e3o precisa terminar.<\/p>\n<p>H\u00e1, entretanto, outra dimens\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o que considero igualmente importante: aprendemos com os exemplos que desejamos seguir, mas tamb\u00e9m com aqueles que nos fazem refletir sobre o que escolhemos n\u00e3o reproduzir. Ao longo da vida, compreendi que admirar um professor n\u00e3o significa transformar todas as suas atitudes em verdades absolutas. A maturidade exige discernimento, autonomia e coragem para construir a pr\u00f3pria identidade. Escolhi n\u00e3o reproduzir a arrog\u00e2ncia que silencia, a indiferen\u00e7a que transforma pacientes em n\u00fameros, a vaidade que coloca o profissional acima da finalidade do cuidado ou a hierarquia utilizada para impedir que algu\u00e9m pense, pergunte ou cres\u00e7a. N\u00e3o digo isso como julgamento de pessoas, mas como compromisso comigo mesmo. Aprendi que a forma\u00e7\u00e3o \u00e9tica tamb\u00e9m acontece quando reconhecemos os limites de determinados exemplos e decidimos construir caminhos diferentes. Afinal, a verdadeira homenagem aos nossos mestres n\u00e3o consiste em imit\u00e1-los integralmente, mas em acolher o que nos tornou melhores e transformar o restante em reflex\u00e3o. A heran\u00e7a de um professor n\u00e3o deve limitar nossa consci\u00eancia; deve nos ajudar a desenvolv\u00ea-la.<\/p>\n<p>Talvez seja nesse ponto que a Medicina encontre a filosofia em sua express\u00e3o mais humana. Martin Buber refletiu sobre a diferen\u00e7a entre reconhecer algu\u00e9m como objeto e encontr\u00e1-lo verdadeiramente como pessoa. Um paciente pode ser examinado, classificado e tratado corretamente, mas, ainda assim, n\u00e3o se sentir acolhido. A ci\u00eancia nos ensina a compreender os mecanismos da doen\u00e7a; a humanidade nos ensina a reconhecer o significado daquela doen\u00e7a na vida de algu\u00e9m. Meus professores me ajudaram a compreender que rigor e ternura n\u00e3o s\u00e3o opostos. Podemos ser exigentes com o conhecimento sem sermos duros com as pessoas; podemos reconhecer nossos limites sem perder a esperan\u00e7a; podemos discordar sem humilhar e ensinar sem transformar o saber em instrumento de poder. Essa \u00e9 uma das formas mais bonitas de exercer a Medicina: fazer da compet\u00eancia uma ponte, nunca uma barreira.<\/p>\n<p>O tempo tamb\u00e9m modifica a maneira como enxergamos nossos mestres. Na faculdade, talvez admir\u00e1ssemos principalmente o conhecimento que demonstravam. Com a maturidade, passamos a reconhecer o valor daquilo que fizeram de n\u00f3s. Algumas palavras s\u00f3 adquiriram sentido anos depois; certas atitudes voltaram \u00e0 mem\u00f3ria diante de decis\u00f5es dif\u00edceis; e alguns ensinamentos se revelaram justamente quando tivemos de escolher entre aquilo que era mais f\u00e1cil e aquilo que consider\u00e1vamos correto. Hannah Arendt refletiu sobre a responsabilidade de transmitir \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es um mundo que nos antecede e que continuar\u00e1 depois de nossa passagem. Meus professores fizeram parte dessa corrente de conhecimento e humanidade. Hoje, compreendo que honrar o que recebi significa tamb\u00e9m transmiti-lo, ensinar com generosidade e oferecer aos mais jovens a liberdade de pensar por conta pr\u00f3pria, sem exigir deles a repeti\u00e7\u00e3o de nossas certezas.<\/p>\n<p>Existe uma forma silenciosa de eternidade na doc\u00eancia. Um professor talvez nunca saiba quantas vezes suas palavras retornaram \u00e0 mem\u00f3ria de um antigo aluno, quantas fam\u00edlias foram acolhidas por causa de um exemplo ou quantos pacientes receberam, indiretamente, algo que come\u00e7ou em uma sala de aula. Uma atitude de respeito pode atravessar d\u00e9cadas; uma li\u00e7\u00e3o de humildade pode transformar a maneira como algu\u00e9m exerce sua autoridade; um gesto de carinho pode multiplicar-se em centenas de outros gestos. O verdadeiro legado de um mestre n\u00e3o cabe em t\u00edtulos, curr\u00edculos ou publica\u00e7\u00f5es. Permanece naquilo que ajudou a transformar nas pessoas. E talvez a beleza maior dessa heran\u00e7a esteja justamente no fato de que ela alcan\u00e7a vidas que o pr\u00f3prio professor jamais conhecer\u00e1.<\/p>\n<p>Aos meus queridos professores da Medicina e da Neurologia, deixo meu carinho, minha admira\u00e7\u00e3o e uma gratid\u00e3o que o tempo n\u00e3o diminui. Voc\u00eas me ensinaram a compreender o c\u00e9rebro, investigar a doen\u00e7a e respeitar a ci\u00eancia, mas tamb\u00e9m participaram da forma\u00e7\u00e3o do homem que existe por tr\u00e1s do m\u00e9dico. Ensinaram-me a amar meus pacientes, a reconhecer a dignidade de quem sofre e a compreender que a Medicina n\u00e3o \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o de poder, mas um exerc\u00edcio de responsabilidade. E, at\u00e9 mesmo pelos caminhos que escolhi n\u00e3o seguir, ajudaram-me a construir minha pr\u00f3pria consci\u00eancia profissional. Se hoje procuro cuidar com mais delicadeza, ensinar com mais generosidade e agir com mais humanidade, existe algo de voc\u00eas em cada uma dessas escolhas. Espero que reconhe\u00e7am um pouco de seus ensinamentos na maneira como procuro exercer a profiss\u00e3o e tratar aqueles que confiam em mim. O saber das m\u00e3os voc\u00eas me ajudaram a construir; a sabedoria do cora\u00e7\u00e3o, voc\u00eas me ensinaram a cultivar. A ci\u00eancia que recebi de voc\u00eas ajudou-me a tratar a doen\u00e7a, mas a humanidade que encontrei em voc\u00eas ensinou-me a amar quem sofre. E talvez n\u00e3o exista homenagem mais verdadeira a um mestre do que transformar aquilo que aprendemos com ele em mais dignidade, mais cuidado e mais amor para o mundo.<\/p>\n<div id=\"attachment_13170\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-13170\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-thumbnail wp-image-13170\" src=\"https:\/\/www.folhanit.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/IMG-20261016-WA0008-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/www.folhanit.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/IMG-20261016-WA0008-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.folhanit.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/IMG-20261016-WA0008-440x440.jpg 440w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><p id=\"caption-attachment-13170\" class=\"wp-caption-text\">Wladimir Bocca<\/p><\/div>\n<p>H\u00e1, entretanto, uma experi\u00eancia que me ensinou essa li\u00e7\u00e3o de maneira particularmente profunda. Certa vez, participei da banca de doutorado de Wladimir Bocca, na \u00e9poca um aluno que hoje reconhe\u00e7o como um dos grandes neurologistas em atividade. Diante da complexidade e da profundidade de seu trabalho, experimentei uma sensa\u00e7\u00e3o rara e necess\u00e1ria: senti-me diminuto diante da dimens\u00e3o do conhecimento que se apresentava a mim. Eu estava ali como examinador de seu doutorado, ocupando uma posi\u00e7\u00e3o que, pelas circunst\u00e2ncias acad\u00eamicas e pelo tempo de trajet\u00f3ria, poderia sugerir uma assimetria entre n\u00f3s. Mas a vida, generosa em suas contradi\u00e7\u00f5es, reservava-me outra fun\u00e7\u00e3o naquele encontro: a de aprendiz. O trabalho de Wladimir provocou em mim algo que considero essencial para qualquer pessoa que pretenda continuar crescendo intelectualmente: a capacidade de reconhecer a grandeza do outro sem precisar diminuir a si mesmo. Naquele momento, compreendi que ele tamb\u00e9m se tornava meu professor, embora talvez n\u00e3o soubesse disso. Ensinou-me que a idade n\u00e3o confere monop\u00f3lio sobre a sabedoria, que a experi\u00eancia n\u00e3o nos torna donos da verdade e que a hierarquia acad\u00eamica jamais deveria nos impedir de reconhecer o brilho intelectual de algu\u00e9m mais jovem.<\/p>\n<p>Lembrei-me, ent\u00e3o, da humildade socr\u00e1tica: quanto mais compreendemos a vastid\u00e3o do conhecimento, mais percebemos o quanto ainda nos falta aprender. Wladimir me ensinou a observar melhor, a baixar a cabe\u00e7a quando necess\u00e1rio e a compreender que a verdadeira grandeza n\u00e3o est\u00e1 em ocupar sempre o lugar de quem ensina, mas em conservar a coragem de aprender. Talvez uma das maiores conquistas de um professor seja justamente esta: chegar a um momento da vida em que j\u00e1 n\u00e3o teme ser aluno. E talvez uma das mais belas formas de gratid\u00e3o seja reconhecer que algumas pessoas que ajudamos a formar tamb\u00e9m acabam transformando profundamente a nossa maneira de pensar. Naquele dia, Wladimir n\u00e3o deixou de ser meu antigo aluno; apenas passou a ocupar, tamb\u00e9m, um lugar entre aqueles que me ensinaram. Wladimir at\u00e9 hoje me chama de professor \u2014 isso me enfurece!<\/p>\n<p>Um agradecimento especial aos professores Acary SB Oliveira e Marcos RG de Freitas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagem ilustrativa \/ Produzida com apoio de IA Existem pessoas que passam por nossa vida e deixam conhecimentos; outras deixam lembran\u00e7as. H\u00e1, por\u00e9m, aquelas que nos transformam t\u00e3o profundamente que continuam presentes, mesmo d\u00e9cadas depois, na maneira como pensamos, sentimos e cuidamos. 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