{"id":6616,"date":"2020-07-25T13:18:17","date_gmt":"2020-07-25T16:18:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.folhanit.com.br\/?p=6616"},"modified":"2020-07-25T15:05:40","modified_gmt":"2020-07-25T18:05:40","slug":"deixa-passar-logo-esse-troco-barulhento-por-marco-orsini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.folhanit.com.br\/?p=6616","title":{"rendered":"&#8216;Deixa passar logo esse tro\u00e7o barulhento&#8217; &#8211; por Marco Orsini"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_6394\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6394\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-thumbnail wp-image-6394\" src=\"http:\/\/www.folhanit.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Image-150x150.jpeg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><p id=\"caption-attachment-6394\" class=\"wp-caption-text\">Marco Orsini \u00e9 MD PhD M\u00e9dico com Forma\u00e7\u00e3o em Neurologia- UFF. Professor Titular da Universidade de Vassouras e UNIG. Professor Pesquisador da P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Neurologia &#8211; UFF.<\/p><\/div>\n<p>Ao atravessar uma rua movimentada em Icara\u00ed, deparei-me com uma jovem empurrando um carrinho de beb\u00ea. Na verdade acho que o pequeno n\u00e3o pode mais ser intitulado como beb\u00ea, pois deveria ter uns oito meses de vida. Chamo at\u00e9 hoje meus filhos de beb\u00eas \u2013 assim farei at\u00e9 perderem aquele cheirinho de p\u00e9 de crian\u00e7a \u2013 um odor id\u00eantico aos artelhos de bonecos de pl\u00e1stico. O agravante \u00e9 que eles j\u00e1 possuem chul\u00e9, porquanto, preciso rever meus conceitos. Cumprimentei-a e ofereci ajuda na travessia \u2013 acenei para alguns carros pararem e seguimos adiante \u2013 agiram com reciprocidade ao meu gesto.<\/p>\n<p>Esses carrinhos de crian\u00e7as fazem um barulho t\u00edpico das roldanas pl\u00e1sticas, nada que seja t\u00e3o incomodativo para rea\u00e7\u00f5es hist\u00e9ricas e descorteses. N\u00e3o possuem buzina, nem tra\u00e7\u00e3o nas quatro rodas. Al\u00e9m disso, n\u00e3o s\u00e3o pilotados por adultos, mas por seres de pureza absoluta \u2013 crian\u00e7as. Enquanto tent\u00e1vamos nos comunicar atrav\u00e9s de m\u00e1scaras, um casal que estava em nossa dianteira que parece ter se incomodado com o som das rodas nas pedras portuguesas falou (a esposa acho eu): \u201cDeixa logo isso passar, esse barulho enche o saco\u201d. Afirmo para os leitores que fiquei pasmo e estarrecido com a fala, entretanto nada fiz al\u00e9m de arregalar os olhos e sinalizar para a m\u00e3e que \u00e9 da natureza humana \u2013 na verdade n\u00e3o deveria ser. N\u00e3o satisfeitos com a insensatez o homem gira-se e pergunta: \u201cO que voc\u00ea est\u00e1 olhando&#8230;passe logo que voc\u00eas est\u00e3o torrando o saco\u201d. Ainda encarou-me como um gladiador romano. Para a nossa felicidade \u00e9 imposs\u00edvel tirar-me do s\u00e9rio, desde que n\u00e3o chateiem meus filhos.<\/p>\n<p>O grande recado dado por essa cr\u00f4nica \u00e9 sobre o povo brasileiro que infelizmente se resume sobre o ocorrido com a frase proferida por uma senhora que alcan\u00e7ou as manchetes dos jornais ap\u00f3s afrontar um senhor que trabalhava como fiscal da prefeitura do Rio de Janeiro. O homem, buscando mant\u00ea-los seguros, sinalizou sobre o distanciamento social. Em contrapartida recebeu uma ingrata resposta: \u201cmeu marido n\u00e3o \u00e9 cidad\u00e3o n\u00e3o, \u00e9 engenheiro civil, formado, melhor do que voc\u00ea\u201d. Acho interessante o n\u00edvel de imbecilidade e de soberba de quem acredita que ter n\u00edvel superior completo define superioridade e car\u00e1ter, ainda mais aqui nesse pa\u00eds assolado por essa casta violenta, xenof\u00f3bica e homof\u00f3bica.<\/p>\n<p>Creio que a explos\u00e3o de atos violentos, os novos modelos de sofrimento ps\u00edquico e a &#8220;biologiza\u00e7\u00e3o&#8221; de quest\u00f5es s\u00f3cio-culturais foram aflorados pela pandemia, mas j\u00e1 estavam no DNA mitocondrial (ess\u00eancia) do povo brasileiro. Esse que respira a falta de cortesia com seus pares. Tais casos podem ser encarados pela insufici\u00eancia cultural e interpretativa que levam ao mal-estar na sociedade contempor\u00e2nea. Estamos perdendo aos pouquinhos a cultura de ouvir, de falar, de narrar, de argumentar e contra-argumentar. A sociedade atual cobra uma postura narcisista das pessoas, uma imagem da perfei\u00e7\u00e3o, do saber tudo, do fingimento coletivo. Os valores morais e \u00e9ticos foram substitu\u00eddos por personagens criados pela m\u00eddia. Quem n\u00e3o se enquadra nesse espectro literalmente sai de cena, meu exemplo, ou come\u00e7a a apresentar auto-decep\u00e7\u00f5es e depress\u00e3o. Minha opini\u00e3o sobre o assunto \u00e9 simples: \u201cO Brasil est\u00e1 totalmente desorganizado em todas as esferas\u201d. Lembro-me do filme \u201cO po\u00e7o\u201d \u2013 uma f\u00e1bula s\u00e1dica. Na pel\u00edcula, um luxuoso banquete \u00e9 servido aos mais favorecidos e os restos ofertados aos que encontram-se no nadir. Somente solidariedade e amor espont\u00e2neos podem nos tirar do po\u00e7o. Certa vez me perguntaram se tinha vergonha de expor minha posi\u00e7\u00e3o politica? Sou socialista cientifico &#8211; embora com pouca cren\u00e7a.<\/p>\n<p>Dedico essa cr\u00f4nica \u00e0 pequena Marina, ainda no ventre da esposa de meu grande amigo de estrada e profiss\u00e3o, Pedro Serr\u00e3o Morales. Que outras venham com o mesmo DNA dessa pequena.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao atravessar uma rua movimentada em Icara\u00ed, deparei-me com uma jovem empurrando um carrinho de beb\u00ea. Na verdade acho que o pequeno n\u00e3o pode mais ser intitulado como beb\u00ea, pois deveria ter uns oito meses de vida. 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