{"id":6723,"date":"2020-08-22T02:05:58","date_gmt":"2020-08-22T05:05:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.folhanit.com.br\/?p=6723"},"modified":"2020-08-22T17:13:38","modified_gmt":"2020-08-22T20:13:38","slug":"estorias-de-provincia-por-marco-orsini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.folhanit.com.br\/?p=6723","title":{"rendered":"Est\u00f3rias de prov\u00edncia &#8211; por Marco Orsini"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_6394\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6394\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-thumbnail wp-image-6394\" src=\"http:\/\/www.folhanit.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Image-150x150.jpeg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><p id=\"caption-attachment-6394\" class=\"wp-caption-text\">Marco Orsini \u00e9 MD PhD M\u00e9dico com Forma\u00e7\u00e3o em Neurologia- UFF. Professor Titular da Universidade de Vassouras e UNIG. Professor Pesquisador da P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Neurologia &#8211; UFF.<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Charitas na d\u00e9cada de 1980<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p>Niter\u00f3i \u00e9 uma prov\u00edncia&#8230; todo mundo sabe. \u00c9 uma esp\u00e9cie de subdivis\u00e3o de algo \u2013 n\u00e3o sei a defini\u00e7\u00e3o. Gosto de viver aqui, embora tenhamos h\u00e1bitos culturais ainda enraizados. Minha vida realmente \u00e9 por aqui e, indubitavelmente, encaro como uma \u201ccasa\u201d confort\u00e1vel. As pessoas tomam conta umas das outras e s\u00e3o fofoqueiras \u2013 minha m\u00e3e tamb\u00e9m era. Interessante era sua capacidade de retirar segredos de motoristas de t\u00e1xi, vigilantes, vendedores de pipoca e, obviamente, de grandes \u00edcones. Lembro-me de uma entrevista com Bussunda, o ator Cl\u00e1udio Besserman Viana. Ele parecia o entrevistador.<\/p>\n<p>Embora alguns de meus amigos acreditem que possuo um lado \u201csombrio\u201d e introspectivo, tra\u00e7o que, ali\u00e1s, possui um marco temporal com o falecimento de meu av\u00f4, me acho alegre. Com uma x\u00edcara de caf\u00e9 extraforte e debru\u00e7ado por alguns minutos, consigo, de forma veross\u00edmil, descrever tudo que vivencio aqui. Niter\u00f3i me proporcionou lidar com narrativas curtas, cr\u00f4nicas e fragmentos de pensamentos, por vezes breves, como insights.<\/p>\n<p>Por aqui residem meus melhores amigos, grandes m\u00e9dicos, excelentes arquitetos e, principalmente, pessoas caridosas. Em contrapartida, aquele grupo que gostaria de viver em Bahamas, enche um pouco o saco. Mas passa&#8230; sempre foi assim&#8230; me aproximo das pessoas que n\u00e3o me reparam como m\u00e9dico \u2013 aquelas que de bom grado, n\u00e3o se preocupam com a vida alheia, como principalmente, as mulheres que fazem parte do meio m\u00e9dico. De uma inf\u00e2ncia pobre seria inevit\u00e1vel n\u00e3o gostar dos meus amigos, que me conheceram andando de chinelo, com uma antiga camisa da CHL (empresa que vov\u00f4 trabalhava) e ao anoitecer, brincando de taco.<\/p>\n<p>Tenho milh\u00f5es de boas lembran\u00e7as aqui na Terra de Arariboia. Uma delas era pescar com meu av\u00f4 na Ilha dos Amores. \u00cdamos de barco. As cocorocas pareciam pular nos anz\u00f3is, mas como tinha pena dos peixes, lhes d\u00e1vamos uma segunda chance. As galinhas-chocas, pap\u00e9is de jornais amassados com pontas reunidas e queimadas, pareciam grandes bal\u00f5es na nossa inf\u00e2ncia. Minha tia certa vez dizia que eu tinha tend\u00eancia de queimar as coisas; achava que seria um perigo para a sociedade. At\u00e9 hoje nunca cometi nada nesse sentido.<\/p>\n<p>Nosso grupo tinha alguns h\u00e1bitos peculiares. Jog\u00e1vamos futebol e literalmente, com o calor do asfalto da Rua Leonel Magalh\u00e3es, fic\u00e1vamos com os p\u00e9s bolhosos. Acredit\u00e1vamos que das peladas poderia surgir um grande craque. T\u00ednhamos sonhos de crian\u00e7as e adolescentes \u2013 muitos n\u00e3o se concretizaram, mas alguns deles foram lindos, pois se tornaram reais.<\/p>\n<p>Minhas rea\u00e7\u00f5es s\u00e3o realmente esquisitas. Nunca estive \u00e0 vontade depois que cresci e tornei-me M\u00e9dico. As pessoas invejam n\u00e3o sei exatamente o qu\u00ea\u2026 De repente nem elas sabem&#8230;Todo esse formalismo e ostenta\u00e7\u00e3o por uma \u201cvida s\u00f3\u201d me deixa cada vez mais distante, estudando sozinho as revistas que assino. Eu n\u00e3o sou mais capaz de desempenhar pap\u00e9is ou personagens na sociedade. Realmente era mais pacificador, que sou nos dias atuais. Acho que me ajudo enquanto pessoa, ent\u00e3o, sempre sobra muita coisa para dividir com outros que aprecio.<\/p>\n<p>Dedico essa cr\u00f4nica para um amigo M\u00e9dico chamado Pedro Morales. Ontem enviou-me uma foto da sua filhota Marina, ainda com movimentos rudimentares de um metazo\u00e1rio em desenvolvimento pleno. Pedro me chamou aten\u00e7\u00e3o quando disse: \u201cMarquinho, desculpe-me pela demora, mas estou apaixonado pela minha filha\u201d. Esqueci o que tinha pedido para ele e, obviamente, chorei de emo\u00e7\u00e3o. Pedro era um desses guris com quem passei parte da minha inf\u00e2ncia, crescemos juntos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Charitas na d\u00e9cada de 1980 Niter\u00f3i \u00e9 uma prov\u00edncia&#8230; todo mundo sabe. \u00c9 uma esp\u00e9cie de subdivis\u00e3o de algo \u2013 n\u00e3o sei a defini\u00e7\u00e3o. Gosto de viver aqui, embora tenhamos h\u00e1bitos culturais ainda enraizados. Minha vida realmente \u00e9 por aqui e, indubitavelmente, encaro como uma \u201ccasa\u201d confort\u00e1vel. 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