{"id":6768,"date":"2020-09-12T21:13:38","date_gmt":"2020-09-13T00:13:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.folhanit.com.br\/?p=6768"},"modified":"2020-09-12T21:13:38","modified_gmt":"2020-09-13T00:13:38","slug":"amizades-umbilicais-por-marco-orsini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.folhanit.com.br\/?p=6768","title":{"rendered":"Amizades umbilicais &#8211; por Marco Orsini"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_6394\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6394\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-thumbnail wp-image-6394\" src=\"http:\/\/www.folhanit.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Image-150x150.jpeg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><p id=\"caption-attachment-6394\" class=\"wp-caption-text\">Marco Orsini \u00e9 MD PhD M\u00e9dico com Forma\u00e7\u00e3o em Neurologia- UFF. Professor Titular da Universidade de Vassouras e UNIG. Professor Pesquisador da P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Neurologia &#8211; UFF.<\/p><\/div>\n<p>O andar do tempo tem-me provocado uma rumina\u00e7\u00e3o an\u00edmica inquietante ao me impor a narrativa que emerge de meu cora\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a dois grandes mestres e, tamb\u00e9m, amigos que a vida me ofertou. O primeiro, decerto, mais \u201cveemente\u201d em suas cobran\u00e7as, com altern\u00e2ncias verbais e nominais que lhe s\u00e3o peculiares, na maneira com que ladeava meus exames f\u00edsicos com os pacientes e na corre\u00e7\u00e3o de meu trabalho de doutoramento. Lembro-me com n\u00edtida clareza de uma frase proferida ao final de minha defesa de tese, em 2006: \u201cO candidato ao t\u00edtulo de Doutor sempre cumpriu com suas atribui\u00e7\u00f5es, embora falhas v\u00e1rias tenham sido observadas em sua arte final. Com o passar dos tempos as letras vermelhas de corretores foram se tornando azuis e, de certo modo, respeitei seu jeito de escrita. Possui uma trajet\u00f3ria promissora e dependente de sua vontade, pois creio ter dom\u201d<\/p>\n<p>Muitos perguntam-me como foi a inaugural aproxima\u00e7\u00e3o do Professor Marcos de Freitas, um dos grandes nomes na neurologia do Brasil \u2013 o melhor dos mestres. Ao construir eve um dos maiores servi\u00e7os de neurologia do pa\u00eds; e por se manter fiel aos ditos de Fernando Pessoa de que a persist\u00eancia \u00e9 o caminho do \u00eaxito, permitiu-lhe cuidar de modo atilado a sementeira onde vicejaram um Marco Ant\u00f4nio Ara\u00fajo Leite, um Jano Alves de Souza, um F\u00e1bio Henrique Porto, um Gabriel de Freitas e tantos outros excelentes m\u00e9dicos. Diversas vezes a presen\u00e7a da aparente falta de sutileza em coment\u00e1rios era antes de tudo um desejo profundo e consciente de demudar um diagn\u00f3stico escalfado para pacientes e seus familiares.<\/p>\n<p>Marcos nasceu no Rio de Janeiro, embora tenha origem em Minas Gerais, por isto o mundo cosmopolita do mar convive com o intimista das serras, a permitir a vis\u00e3o do mundo inteiro. A compreens\u00e3o destas vis\u00f5es de seus mundos oce\u00e2nico e circunspecto facilitou-me a nossa continuada conviv\u00eancia afetuosa e fraterna. Formado por um pai gerente do Banco do Brasil, definido por ele como dedicado ao extremo ao seu trabalho, que imp\u00f4s a figura paterna um quadro depressivo quando a aposentadoria compuls\u00f3ria se fez presente; e a m\u00e3e professora de ensino m\u00e9dio, uma verdadeira vision\u00e1ria, nas pr\u00f3prias palavras do neurologista. Todos os filhos eram expostos muito cedo ao aprendizado da m\u00fasica, de l\u00ednguas e da busca do conhecimento.<\/p>\n<p>Creio que ningu\u00e9m que se formou no Liceu Nilo Pe\u00e7anha, em Niter\u00f3i, tenha permanecido insens\u00edvel \u00e0s injusti\u00e7as sociais e ao desejo de um pais soberano e livre, porquanto este era o ambiente reinante \u00e0 \u00e9poca. Ao que tudo indica sua alma est\u00e1 marcada de modo indel\u00e9vel pelo esp\u00edrito lice\u00edsta da \u00e9poca. Em conversa \u00edntima, algo muito raro de algu\u00e9m conseguir, relatou a informa\u00e7\u00e3o de que fora um dos fundadores, juntamente com seu colega de turma, o James Pit\u00e1goras de Mattos, do Cine Clube da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Filmes com veias art\u00edsticas, bordados de cultura e entrela\u00e7ados com sociologia preenchiam o farto card\u00e1pio. Ao final todos se reuniam e teciam, como uma renda, cr\u00edticas ao desfecho final.<\/p>\n<p>Penso que nossa empatia, tamb\u00e9m foi facilitada por meu genu\u00edno desejo de aprender ao seu lado; por conseguinte, para estranheza de alguns, furtava-lhe um abra\u00e7o espont\u00e2neo, n\u00e3o planejado, de minha imensa amorosidade pelo meu pater in pectoris.<\/p>\n<p>A verdade deve imperar nessa cr\u00f4nica \u2013 ele n\u00e3o gostava muito \u2013 era desmontado \u2013 mesmo assim eu fazia. Marcos fora formado por professores como Antonio Rodrigues de Mello , do Instituto de Neurologia Deolindo Couto da UFRJ; Peter Kynaston Thomas, do Royal Free Hospital e Gerard Said, do H\u00f4pital Bic\u00eatre. Creio que essa fus\u00e3o, junto com sua pr\u00f3pria compet\u00eancia, contribu\u00edram para torn\u00e1-lo o que \u00e9 para a Medicina \u2013 um incomparabilis. Compartilho desejos e vontades com meu professor. Cremos que somente a arte, a cultura e a justi\u00e7a social ser\u00e1 capaz de salvar a humanidade. Nunca reparei um Marcos Freitas ambicioso nem vaidoso, embora tenhamos as nossas, mesmo que escondidas em nossos esp\u00edritos.<\/p>\n<p>Aprendi tamb\u00e9m li\u00e7\u00f5es de Medicina, de valores, de amor e zelo com Acary Bulle de Oliveira. Nascido em Monte Azul Paulista (nas proximidades de Barreto), terceiro de sete filhos, tamb\u00e9m foram criados pelos av\u00f3s. Considerava-se um jovem livre e feliz durante a pobre inf\u00e2ncia, mas com conceitos e regras bem estabelecidos. \u201cSe afagas um p\u00e1ssaro, fa\u00e7a retorn\u00e1-lo a natureza. Se montas num cavalo, ofere\u00e7a um banho, carinho e alimenta\u00e7\u00e3o\u201d. Uma educa\u00e7\u00e3o do ir e voltar \u2013 creio eu com meus bot\u00f5es<\/p>\n<p>Professor Acary fora por um bom tempo caixa de restaurante na Avenida Paulista. N\u00e3o percebi, sinceramente, vergonha do outro lado da linha telef\u00f4nica. Senti uma admira\u00e7\u00e3o enorme na medida em que ladeava os fatos e adicionava pronomes. Nesse restaurante almo\u00e7avam integrantes da Gazeta, um famoso jornal paulistano. Acary recebia as not\u00edcias fresquinhas como os frangos que servia ao grupo de jornalistas. Cr\u00ea, de p\u00e9s juntos, que algum dos frequentadores do restaurante pagaram-lhe um ano de supletivo para cursar o pr\u00e9-vestibular.<\/p>\n<p>Nada fora em v\u00e3o. Formou-se em medicina na Escola Paulista de Medicina, e partiu num p\u00e9riplo para tornar-se m\u00e9dico. Realizou est\u00e1gio com \u00edndios do Alto Xingu, a maior experi\u00eancia que teve como ser-humano. Disse-me, em tom grave e pausado: \u201cOrsini, me senti muito incapaz ao compreende-los, mas tinha total consci\u00eancia que estavam anos luz \u00e0 minha frente\u201d. Partira, anos depois, para a Universidade de Columbia &#8211; coincid\u00eancia ou n\u00e3o- local onde Lou Gehrig despontou como o melhor jogador de baseball. Todos n\u00f3s que lidamos diariamente com pacientes com Esclerose Lateral Amiotr\u00f3fica, conhecemos a trajet\u00f3ria tr\u00e1gica da morbidez do atleta. Acary torna-se aluno de Lewis Phillip Rolland.<\/p>\n<p>Ao retornar \u00e0 EPM buscava se tornar um m\u00e9dico de voca\u00e7\u00e3o, algo que j\u00e1 possu\u00eda e n\u00e3o sabia. Estudou cuidados integrativos; isso que os \u00edndios fazem com maestria. Provavelmente a raz\u00e3o de ser um \u00edcone no que faz&#8230;n\u00e3o preciso descrever&#8230;seria cansativo. Todos os dias meu amigo diz tentar pagar suas contas com Deus, embora afirme que seu \u201ccart\u00e3o de cr\u00e9dito\u201d esteja ainda robusto de dividas. Conheci a Fernanda Ceragioli, mas n\u00e3o seus filhos. Sei que se trata de uma amiga e esposa linda e fant\u00e1stica.<\/p>\n<p>J\u00e1 me perguntaram se gostaria de ser igual a eles. A resposta fora r\u00e1pida, l\u00e9pida e conclusiva. \u201cL\u00f3gico que n\u00e3o. Tenho o meu Deus, os meus filhos, a minha forma de fazer medicina e adquiri seminais conhecimentos com meus pais e av\u00f3s\u201d. O que levo de Marcos e Acary? Conhecimento m\u00e9dico, li\u00e7\u00f5es, corre\u00e7\u00f5es, cultura, amorosidade, sensa\u00e7\u00e3o de ser m\u00e9dico \u00e9 um compromisso de uma vida inteira. E quando achar que sou um bom m\u00e9dico, abaixar a cabe\u00e7a e voltar para os estudos. E sempre&#8230;E sempre. Eles n\u00e3o param de estudar, mas eu vou atr\u00e1s, como a vida permite. Levo o meu dom, meu esfor\u00e7o, minha est\u00f3ria e meus artigos. Volto e refa\u00e7o o dever de casa.<\/p>\n<p>Quando me perguntam &#8220;se as pessoas possuem inveja de mim&#8221;, de pronto respondo n\u00e3o sei. Mas, penso que, caso tenham, somente encontro motivo pelo fato de ser amigo dos grandes nomes da Medicina; e esses que a cada dia que a vida me proporciona, qualifica-me como ser humano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O andar do tempo tem-me provocado uma rumina\u00e7\u00e3o an\u00edmica inquietante ao me impor a narrativa que emerge de meu cora\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a dois grandes mestres e, tamb\u00e9m, amigos que a vida me ofertou. 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