{"id":6968,"date":"2020-12-19T13:41:33","date_gmt":"2020-12-19T16:41:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.folhanit.com.br\/?p=6968"},"modified":"2020-12-19T15:21:17","modified_gmt":"2020-12-19T18:21:17","slug":"a-lama-por-marco-orsini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.folhanit.com.br\/?p=6968","title":{"rendered":"A lama &#8211; por Marco Orsini"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_6394\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6394\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-thumbnail wp-image-6394\" src=\"http:\/\/www.folhanit.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Image-150x150.jpeg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><p id=\"caption-attachment-6394\" class=\"wp-caption-text\">Marco Orsini \u00e9 MD PhD M\u00e9dico com Forma\u00e7\u00e3o em Neurologia- UFF. Professor Titular da Universidade de Vassouras e UNIG. Professor Pesquisador da P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Neurologia &#8211; UFF.<\/p><\/div>\n<p>Sempre percorremos como andarilhos as ruas de Icara\u00ed e, na maioria das vezes, os detalhes da sociedade n\u00e3o me passam despercebidos. Estava um menino com os p\u00e9s desnudos de prote\u00e7\u00e3o, com as solas caliginosas e toldadas pela mis\u00e9ria. \u00c9 uma esp\u00e9cie de ritual que tento me blindar diariamente. No entanto, n\u00e3o consigo tomar um caf\u00e9 com meus filhos e cerrar meus olhos a tamanho abandono. Aproximamos de modo a preservar o distanciamento por conta da pandemia, mas a conter uma vontade imensa de acolhe-lo, como fa\u00e7o com todas as pessoas que quero bem.<\/p>\n<p>Perguntei ao menino:<br \/>\n&#8211; O que voc\u00ea deseja?<br \/>\nSem titubear respondeu:<br \/>\n&#8211; Tio, um par de sand\u00e1lias.<\/p>\n<p>A este pedido quase em tom de s\u00faplica fez-nos comprar as sand\u00e1lias.<\/p>\n<p>Aproveitei a oportunidade vivida por meus pequenos, perguntei ao Jo\u00e3o e ao Bento por que o menino pedia sand\u00e1lias. Cada um respondeu de acordo com as suas fases de desenvolvimento psicoemocional.<\/p>\n<p>Disse-me, Jo\u00e3o:<br \/>\n&#8211; Pai, para n\u00e3o ficar com frio nos p\u00e9s.<br \/>\nEnquanto Bento:<br \/>\n&#8211; Para n\u00e3o ser picado por escorpi\u00f5es e outros bichos.<\/p>\n<p>Bento sempre com suas sacadas de escorpi\u00f5es. Agora cismou de ser chefe de cozinha \u2013 j\u00e1 est\u00e1 matriculado.<\/p>\n<p>Essa cena trouxe-me \u00e0 lembran\u00e7a dos professores Melo Reis, Ara\u00fajo Leite e De Freitas \u2013 ali estava um exemplo da injusti\u00e7a e de invisibilidade social que vive uma parte significativa de nossa gente, e tamb\u00e9m, os motivos urgentes para um novo modelo de sociedade. Para al\u00e9m da crueza do momento veio-me o alerta de S\u00e3o Thom\u00e1s de Aquino: \u201cTudo que jogamos contra o vento vem ao nosso encontro\u201d. Mas, antes de prosseguir gostaria de enviar um abra\u00e7o virtual e afetuosos a um mestre da vida, Ol\u00edmpio Pe\u00e7anha, pertencente a grei de Harold Gillies, o pioneiro da cirurgia pl\u00e1stica reconstrutiva. O doutor Ol\u00edmpio inspira poemas em corpos humanos como os famosos escultores em m\u00e1rmore com seus cinz\u00e9is e buris. Al\u00e9m das nobres e habilidosas m\u00e3os possu\u00ed um imenso cora\u00e7\u00e3o, \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de quem necessita, um aliado incondicional do ser humano.<br \/>\nEspanto-me como a sociedade que n\u00e3o repara esses adolescentes que se encontram numa linha t\u00eanue entre ser humilhado e aceitar, a sorte de uma oportunidade de emprego ou serem acolhidos por descaminhos que a sociedade que n\u00e3o os acolhe, repudia. A classe m\u00e9dia tem uma capacidade c\u00ednica de n\u00e3o olhar. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que essa gera\u00e7\u00e3o cria por eles um desrespeito m\u00fatuo. Bolsas e outros apetrechos eles \u201cconquistam\u201d como trof\u00e9us, mas n\u00e3o possuem o que deveria importar, uma moedinha cunhada no lado esquerdo do peito chamada empatia. O jovem ganhou sua sand\u00e1lia e dia depois j\u00e1 n\u00e3o estava com elas&#8230;<\/p>\n<p>O descaso com a condi\u00e7\u00e3o social \u00e9 evid\u00eancia da sociedade fragmentada em classe e com a alma habitada por um racismo estrutural impiedoso. N\u00e3o me venham com esta afirma\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o somos cheios de preconceitos&#8230; somos, e \u00e9 not\u00f3rio. Parece-me uma esp\u00e9cie de bin\u00f4mio da vida do tipo vamos fazer tudo para viver ou deixa morrer.<\/p>\n<p>O Jo\u00e3o me perguntou tamb\u00e9m, por que os pobres e os mendigos n\u00e3o t\u00eam coronav\u00edrus?<\/p>\n<p>Respondi-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Filho, eles t\u00eam sim, alguns morrem pelas ruas e outros se curam espontaneamente. Existe um detalhe Jo\u00e3o, as pessoas n\u00e3o chegam perto dos mendigos, nem sequer os olham, por isso \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil explicar a voc\u00ea.<\/p>\n<p>Infelizmente, a nossa sociedade \u00e9 estruturada num sistema arcaico com o crivo da divis\u00e3o de classe e de ra\u00e7a. Desumanizamos a figura do \u201coutro\u201d at\u00e9 ao ponto de torn\u00e1-los invis\u00edveis e n\u00e3o mais nos preocuparmos como ele. Isso ocorre diariamente e em propor\u00e7\u00f5es desmesuradas. Aumenta de acordo com os casos da pandemia. Hoje, conversei durante alguns minutos com o professor Marcos de Freitas sobre estas mazelas \u2013 trouxe-me um al\u00edvio an\u00edmico por me fazer compreender melhor a situa\u00e7\u00e3o que vivemos.<\/p>\n<p>O Estado age de forma classista e humilhante, pois quer exigir cuidados individuais de quem nunca sequer foi olhado. Digo por vivencia, olho no olho, muito antes da pandemia \u2013 desde que suas m\u00e3es estavam em per\u00edodo gestacional. As pessoas n\u00e3o possuem \u00e1gua pot\u00e1vel, vasos sanit\u00e1rios, pias com \u00e1gua corrente; e ainda querem falar de m\u00e1scaras protetoras! As crian\u00e7as n\u00e3o possuem chinelos e querem falar de jovem aprendiz! As crian\u00e7as n\u00e3o possuem escolas e querem dar os raros exemplos de grandes intelectuais que emergiram da pobreza.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos esquecer, no entanto, que h\u00e1 in\u00fameras atitudes desumanas que fazem parte do cotidiano de milh\u00f5es de crian\u00e7as, sejam elas ricas ou pobres. As pobres pela desinforma\u00e7\u00e3o e pela pr\u00f3pria pobreza \u2013 uma legi\u00e3o de despossu\u00eddos; e as ricas que podem possuir genitores distantes e permissivos em suas forma\u00e7\u00f5es \u00e9ticas e morais. A permissividade e a falta de di\u00e1logo com adolescentes e com as crian\u00e7as da classe m\u00e9dia, decerto, n\u00e3o ir\u00e1 produzir aquele menino de p\u00e9s descal\u00e7os, mas, certamente, poder\u00e1 criar mais meninos desamparados. Existe uma infinidade de contrapontos que circundam a neglig\u00eancia no cerne da palavra, desde sua defini\u00e7\u00e3o e condicionamento de responsabilidade. Existe muita crian\u00e7a rica e de classe m\u00e9dia que sofre por neglig\u00eancia dos pais. Muitos n\u00e3o saber\u00e3o contra-argumentar com pitadas sem\u00e2nticas, pois, infelizmente, n\u00e3o limitados intelectualmente \u2013 mas que possuem os recursos do capital. Uma parte entra na parcela do \u201cestou vendo, mas deixa morrer\u201d. A assim caminhamos&#8230; vamos dar exemplos exemplares \u2013 n\u00e3o tolos.<\/p>\n<p>Queria dedicar essa cr\u00f4nica ao meu amigo do cora\u00e7\u00e3o e grande profissional Fernando Miguelote. Gosto muito de sua sabedoria discreta e calada. Seu jeito de encarar as pessoas, a empatia com os amigos e as fotos com os peixes. Fernandinho, um beijo no seu cora\u00e7\u00e3o. Deixo tamb\u00e9m o meu afago para o meu m\u00e9dico, professor Suassuna. No come\u00e7o quieto \u2013 hoje ainda de poucas palavras, mas com um cora\u00e7\u00e3o enorme \u2013 uma esp\u00e9cie de bonsai para dentro. Fiquei muito feliz de ter me reaproximado de Gabriel de Freitas, hoje o melhor especialista em doen\u00e7as cerebro-vasculares. Pensava ter perdido sua amizade que foi constru\u00edda com nossos p\u00e9s descal\u00e7os, durante algumas partidas de futebol em sua casa de Itaipava. Ainda deve ser ruim de bola, mas \u00e9 um craque na medicina. Ele voltou, inicialmente meio de longe, mas est\u00e1 aqui acolhido em nosso grupo. Ele tem gen\u00e9tica, al\u00e9m de seu imenso talento e determina\u00e7\u00e3o, as condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias para se destacar \u00e0 semelhan\u00e7a paterna.<\/p>\n<p>Deixo meu carinho tamb\u00e9m para todos os estudantes do Curso de Medicina da UNIG \u2013 \u00e0queles que fazem inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 pesquisa comigo. N\u00e3o poderia deixar de comentar a troca de farpas que time com um irm\u00e3o que muito amo, aqueles do fund\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, Vinicius (Fa\u00edsca). Ele e Adriano L\u00facio iniciaram meu processo de forma\u00e7\u00e3o em jiu-jitsu desde 1996. Brigamos por uma discuss\u00e3o sobre filhos, mas como grandes amigos aparamos as arestas e, humildemente, disse-lhe de meu sentimento fraterno por ele. Tamb\u00e9m&#8230;um faixa preta como ele&#8230;risos.<\/p>\n<p>Ontem fui visitar minha m\u00e3e e pedi for\u00e7a, ajuda e ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>M\u00e3e &#8211; eu te amo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre percorremos como andarilhos as ruas de Icara\u00ed e, na maioria das vezes, os detalhes da sociedade n\u00e3o me passam despercebidos. Estava um menino com os p\u00e9s desnudos de prote\u00e7\u00e3o, com as solas caliginosas e toldadas pela mis\u00e9ria. \u00c9 uma esp\u00e9cie de ritual que tento me blindar diariamente. 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