{"id":6977,"date":"2020-12-24T12:35:02","date_gmt":"2020-12-24T15:35:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.folhanit.com.br\/?p=6977"},"modified":"2020-12-24T12:35:02","modified_gmt":"2020-12-24T15:35:02","slug":"poco-do-saber-por-marco-orsini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.folhanit.com.br\/?p=6977","title":{"rendered":"Po\u00e7o do saber &#8211; por Marco Orsini"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_6394\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6394\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-thumbnail wp-image-6394\" src=\"http:\/\/www.folhanit.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Image-150x150.jpeg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><p id=\"caption-attachment-6394\" class=\"wp-caption-text\">Marco Orsini \u00e9 MD PhD M\u00e9dico com Forma\u00e7\u00e3o em Neurologia- UFF. Professor Titular da Universidade de Vassouras e UNIG. Professor Pesquisador da P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Neurologia &#8211; UFF.<\/p><\/div>\n<p>Certa vez, ainda adolescente, fui a uma consulta m\u00e9dica com a Dra. Loan Towersey. Ela sempre foi uma dermatologista calada, mas de cora\u00e7\u00e3o enorme. O uso cont\u00ednuo de corticoides provocou-me, como esperado, algumas les\u00f5es devido a candid\u00edase nas coxas, que eram pioradas pelo calor e a umidade das cal\u00e7as de jiu-j\u00edtsu. Este esporte salvou-me da depress\u00e3o \u2013 e que ainda me acude. Comentei com ela que queria ser m\u00e9dico neurologista. Ser melhor no amor, na dor e na arte de ofertar o m\u00e1ximo para os pacientes \u2013 tipo dias melhores. Doutora Loan, como a chamava, escrevia uma letra que n\u00e3o consegui decifrar, mas no final estava.<\/p>\n<p>\u201cProfessor Marcos RG de Freitas \u2013 gostaria que levasse meu pedido em considera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Caminhei, logo ap\u00f3s minha consulta, em dire\u00e7\u00e3o ao consult\u00f3rio de Marcos. N\u00e3o tinha a menor ideia de quem seria e o que representava. Esperei alguns minutos e fui atendido. Estranho seria se eu n\u00e3o tivesse me tornado seu ardoroso admirador, apesar de suas piadas e n\u00e3o poucas ironias. \u201cSofri\u201d muito com seus olhares durante as anamneses, os exames f\u00edsicos e neurol\u00f3gicos, mas tudo eu assimilava.<\/p>\n<p>Foram quase 12 anos ao seu lado na Universidade Federal Fluminense. L\u00e1 conclui minha capacita\u00e7\u00e3o e doutorado em neurologia. Do outro lado da ponte, meu mestrado e p\u00f3s-Doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em verdade nasci na UFRJ, tornei-me neurologista pela UFF e posteriormente retornei para minha casa com o Professor Alair Pedro Ribeiro, no Instituto de Psiquiatria &#8211; IPUB &#8211; com estudos sobre Esclerose Lateral Amiotr\u00f3fica e Dem\u00eancia Fronto-Temporal.<br \/>\nEstabeleci uma rela\u00e7\u00e3o muito bonita com o Marcos. Nunca desejei ser igual a ele, nem t\u00e3o pouco reproduzir a atitude reprov\u00e1vel de tanta gente que bebeu em sua preciosa fonte de conhecimentos, e ao final, dar-lhe \u00e0s costas. Como vivenciei isto &#8211; principalmente quando a aposentadoria bateu \u00e0 sua porta. Nunca mais tive coragem de retornar naquele servi\u00e7o que para mim tornou-se um espa\u00e7o que me emociona; tudo que fiz foi por amor incondicional para essa Escola de Medicina &#8211; nada pedi em troco &#8211; embora tenha \u201capanhado\u201d em demasia de dois sujeitos. Isso \u00e9 sujo para a grandeza dessa mensagem. Enfim, anotava com min\u00facia tudo que daquela diferenciada cachola emanava. Cabe o registro de que sempre levava comigo um gravador da marca Panasonic. Minha m\u00e3e comprou-o com dificuldade; e naquela \u00e9poca, as pilhas palito eram caras. Fingia ter paci\u00eancia para me formar, mas n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es \u00f3timas de ter ferramentas e apetrechos que alguns tinham. Marcos conseguiu muitos eventos e congressos para eu participar gratuitamente, mesmo quando ainda estudante de medicina. Ele sempre dava um jeito para quem se esfor\u00e7ava.<\/p>\n<p>Marcos RG de Freitas nasceu em 25 de maio de 1945, filho do Luiz Raimundo de Freitas, competente e exemplar banc\u00e1rio, e de Delphina de Freitas Gomes, devotada professora. Confessou-me que sua m\u00e3e era muito exigente, independentemente de seu esfor\u00e7o. Natural do Rio de Janeiro iniciou seus primeiros estudos nas cidades de Ub\u00e1 e Al\u00e9m Para\u00edba, em Minas Gerais, onde o menino fora aos poucos tomando formato, obviamente, com o brilhantismo de seus atributos e compet\u00eancias cognitivas em consolida\u00e7\u00e3o. Em Niter\u00f3i cursou o ensino m\u00e9dio no Col\u00e9gio Liceu Nilo Pe\u00e7anha \u2013 diga-se de passagem, tal \u201cescola\u201d tamb\u00e9m formou minha m\u00e3e. A Bety adorava professor Marcos \u2013 n\u00e3o preciso dizer o porqu\u00ea&#8230; Seu carinho com Marco Ant\u00f4nio Ara\u00fajo Leite e Melinho tamb\u00e9m era de grande monta. Mesmo antes de partir ele me disse:<\/p>\n<p>\u201cFilho, n\u00e3o esque\u00e7a do professor Marcos. O nome disso \u00e9 parceria humana e reciprocidade\u201d.<\/p>\n<p>Por vezes, achava que minha m\u00e3e se esquecera que eu nasci de seu ventre. Na verdade, t\u00ednhamos dificuldades, eu e minha m\u00e3e, em atividades que envolviam concentra\u00e7\u00e3o, tempo-espa\u00e7o, memoriza\u00e7\u00e3o e outras coisas. Ela se foi, os problemas ficaram comigo. Acho que sou a pessoa que mais perde as coisas no mundo. \u00c0s vezes come\u00e7o a rir de mim mesmo. S\u00f3 n\u00e3o me perco durante as atividades do consult\u00f3rio; ao estudar o que gosto, e na companhia dos meus filhos. O resto todo vai ficando pelo caminho&#8230; sempre fui assim. Decerto hoje receberia algum diagn\u00f3stico da Classifica\u00e7\u00e3o Internacional de Doen\u00e7a, e bem prov\u00e1vel algum deste rem\u00e9dio compat\u00edvel para este r. Hoje fazem coisas que at\u00e9 quem mora no lugar oposto \u00e0 Deus duvida.<\/p>\n<p>Por falar sobre essas quest\u00f5es de tudo perder, passei uma situa\u00e7\u00e3o muito engra\u00e7ada com Marcos ao final do ambulat\u00f3rio no Hospital Universit\u00e1rio Ant\u00f4nio Pedro. Ao nos dirigirmos para o carro escutamos o portugu\u00eas da padaria aos berros:<\/p>\n<p>\u201cProfessor, o senhor esqueceu algo aqui\u201d.<\/p>\n<p>Marcos respondeu: \u201cJ\u00e1 sei \u2013 a chave do carro \u2013 fiz uma segunda \u2013 depois pego &#8211; deixa ela guardada ai\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o aguentei e voltei \u2013 n\u00e3o sabia que existia algu\u00e9m pior do que eu. Ao chegar ao estabelecimento o senhor me entrega as chaves e um isopor que Marcos acabara de deixar por l\u00e1. Ao retornar ao carro, Marcos me olha espantado e diz:\u00a0 \u201cmeu Deus, a bi\u00f3psia do paciente\u201d.<\/p>\n<p>Quase morri de rir. No Hospital Universit\u00e1rio Ant\u00f4nio Pedro, muitos n\u00e3o tinham coragem de sequer de mirar o olhar para o Professor Marcos -Chefe do Servi\u00e7o; achavam que viria v\u00edtima de uma piada desconcertante; aquelas que ele fazia comigo quase todo o tempo. Pensava \u00e0s vezes que o objetivo dele era me chamar de limitado, mas como estava anos luz distante de seus conhecimentos, ele ficava com pena. Assim caminhava nossa rela\u00e7\u00e3o. Sempre que o meu humor me permitia dava-lhe um beijo em seu escalpo. Ele n\u00e3o gostava \u2013 por isso eu fazia. Ao falar nisto, Marcos tem uma mania horr\u00edvel de desligar o celular em minhas liga\u00e7\u00f5es e somente ligar quando ele quiser. Coisa terr\u00edvel. Comecei a estudar muito, as piadas foram parando, mas depois pioraram. Ele come\u00e7ou a subir o n\u00edvel das perguntas que s\u00f3 sei l\u00e1 quem sabia responder. Quando eu acertava dizia. &#8220;Orsini, obriga\u00e7\u00e3o, n\u00edvel 1&#8221;.<\/p>\n<p>Na UFRJ, sua Alma mater, formou-se e concluiu seu Mestrado e Doutorado em Neurologia, e seguida o g\u00eanio cruzaria o Atl\u00e2ntico e estaria a estudar em Londres o seu P\u00f3s-Doutorado. Andando o tempo, mostrava seu conhecimento ao Professor G\u00e9rald Saide, em terras parisienses. No Rio de Janeiro fora disc\u00edpulo, amigo e companheiro preferido de tert\u00falias neurol\u00f3gicas, culturais, e vis\u00e3o de mundo do grande Professor Antonio Rodrigues de Mello. Ao falar sobre o saudoso mestre ainda o emociona at\u00e9 hoje, por den\u00fancia de seu tom de voz e por suas inconfund\u00edveis express\u00f5es faciais. O Marcos passou dos limites da excel\u00eancia profissional tanto como m\u00e9dico quanto como professor. O Carlos Henrique Melo Reis, hoje chamado por mim de bordado b\u00falgaro, \u00e9 tamb\u00e9m um grande fen\u00f4meno da neurologia formado na grei f\u00e9rtil e luminosa do professor Mello. Ele tamb\u00e9m nutre sua admira\u00e7\u00e3o e distinto afeto, mesmo que \u00e0 dist\u00e2ncia, mas por discri\u00e7\u00e3o que por desejo, pelo Marcos. O Melinho &#8211; tamb\u00e9m lice\u00edsta -, \u00e9 um ser muito diferente que j\u00e1 vi na vida. Est\u00e1 sempre calmo e alegre, mas quando se irrita \u00e9 uma vez s\u00f3. Uma esp\u00e9cie de lenda viva \u2013 n\u00e3o consigo ter \u201cmuni\u00e7\u00e3o\u201d intelectual para iniciar nenhum assunto. Isso me deixa feliz; faz-me estudar. Creio que, na \u00e9poca em que estes dois eram meninos, j\u00e1 habitava em seus cora\u00e7\u00f5es um sentimento de fazer algo para o bem de nosso povo, digo, para os menos favorecidos, para os desterrados em sua pr\u00f3pria terra.<\/p>\n<p>A dor pode sempre mostrar algo de bom, este \u00e9 meu pensamento. Divido o meu amor com todos os pacientes. Sinto culpa de n\u00e3o poder fazer mais para esse grupo t\u00e3o castrado de sonhos.<\/p>\n<p>Desde a adolesc\u00eancia, Freitas albergou os ideais de que o coletivo deve ter preced\u00eancia imperativa sobre o indiv\u00edduo, da igualdade de oportunidades para todos, da fraternidade entre os povos, da preserva\u00e7\u00e3o da natureza. Considera que somente a educa\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria de base para todos e a forma\u00e7\u00e3o interdisciplinar s\u00f3lida para os que frequentarem as universidades poder\u00e3o salvar o nosso inconcluso processo civilizat\u00f3rio. A cultura, as artes e a ci\u00eancia devem estar irmanadas para o afastamento definitivo da aliena\u00e7\u00e3o e do permanente esp\u00edrito colonial.<\/p>\n<p>Como professor de Medicina, atendeu pacientes em unidade do Sistema \u00danico de Sa\u00fade, com o intuito de estar pr\u00f3ximo do sofrimento dos pacientes despossu\u00eddos, e cumprir sua excelsa diretriz de cidad\u00e3o envolvido com os destinos de nosso povo. A indigna\u00e7\u00e3o jamais deixou de ser sua companheira por conta das des\u00eddias de subsequentes governos. Em sua escola neurol\u00f3gica aprendeu que a anamnese; o exame f\u00edsico e neurol\u00f3gico \u201cfalam\u201d por si. N\u00e3o obstante as nossas vicissitudes ele acredita que o mundo ir\u00e1 melhorar&#8230; sorte para nossos filhos e netos.<\/p>\n<p>Dedico essa cr\u00f4nica ao meus amigos e professores Marco Ant\u00f4nio Ara\u00fajo Leite e Jano Alves de Souza. N\u00e3o posso esquecer de Cl\u00e1udio Morales. Respons\u00e1vel por um laborat\u00f3rio que possui vida atr\u00e1s dos exames. Que trata e conhece os pacientes, as dores que carreiam e ainda possui tempo de ligar e vibrar com alguns resultados. Se tornou um amigo do peito &#8211; daqueles poucos- tipo Alair Pedro Ribeiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Certa vez, ainda adolescente, fui a uma consulta m\u00e9dica com a Dra. Loan Towersey. Ela sempre foi uma dermatologista calada, mas de cora\u00e7\u00e3o enorme. O uso cont\u00ednuo de corticoides provocou-me, como esperado, algumas les\u00f5es devido a candid\u00edase nas coxas, que eram pioradas pelo calor e a umidade das cal\u00e7as de jiu-j\u00edtsu. 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