{"id":7028,"date":"2021-01-17T18:57:36","date_gmt":"2021-01-17T21:57:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.folhanit.com.br\/?p=7028"},"modified":"2021-01-17T19:01:51","modified_gmt":"2021-01-17T22:01:51","slug":"mae-voce-me-acha-burro-por-marco-orsini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.folhanit.com.br\/?p=7028","title":{"rendered":"&#8220;M\u00e3e, voc\u00ea me acha burro?\u201d &#8211; por Marco Orsini"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_6394\" style=\"width: 256px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6394\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-6394\" src=\"http:\/\/www.folhanit.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Image-246x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"246\" height=\"300\" \/><p id=\"caption-attachment-6394\" class=\"wp-caption-text\">Marco Orsini \u00e9 MD PhD M\u00e9dico com Forma\u00e7\u00e3o em Neurologia- UFF. Professor Titular da Universidade de Vassouras e UNIG. Professor Pesquisador da P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Neurologia &#8211; UFF.<\/p><\/div>\n<p>Essa foi uma das poucas perguntas feitas por mim para a minha m\u00e3e, embora soubesse que me machucaria uma resposta inesperada, mas ela veio como uma liberta\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u201cN\u00e3o filho, voc\u00ea \u00e9 ainda novo\u201d.<\/p>\n<p>Bety &#8211; uma mulher muito simples e piedosa &#8211; alertou-me que ainda teria tempo para me tornar mais maduro e menos ignorante. Fiz um mergulho dentro de mim mesmo e, literalmente abstra\u00edr-me dos excessos do mundo externo. Estou numa viagem de autoconhecimento h\u00e1 tempos, embora saiba que minha subjetividade depende do que o outro diz que sou, como na pergunta feita para minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Precisamos um do outro, e desta forma, mantenho-me com sincero desejo que o mundo melhore para todos.<\/p>\n<p>Hoje, \u00e9 algo torturante e contundente para as pessoas ficarem imersas no espa\u00e7o restrito de seus pr\u00f3prios pensamentos. A dependencia somente de estimulos externos, o consumismo compulsivo e a falta de di\u00e1logo parece que restringiu nossas rela\u00e7\u00f5es interpessoais. Certa vez, escutei de um professor de medicina que ele dominava oito idiomas; fiquei pensativo e triste. \u201cPuxa, esse homem fala tantas linguas, mas n\u00e3o se faz entender nem com a sua nativa\u201d.<br \/>\nEnfim, hoje tento lapidar o que tenho de melhor e ter sempre algo produtivo a dizer para os que comigo interagem. A coisa mais preciosa da vida \u00e9 se n\u00f3s somos fatores de soma na vida de outros&#8230; a nossa vida pode ser uma esp\u00e9cie de fator de soma ou de subtra\u00e7\u00e3o&#8230; cada palavra que produzimos estamos puxando pessoas para cima ou para baixo. Se nossas palavras tr\u00e1s \u00e0 tona e toca o cora\u00e7\u00e3o de outros, isso j\u00e1 \u00e9 suficiente para toda uma vida.<\/p>\n<p>Deixo as dedica\u00e7\u00f5es acima e parto para uma par\u00e1grafo que responde minha pergunta no t\u00edtulo. Olhem com astutez essas duas \u201cpalavrinhas\u201d: est\u00e1tico e ext\u00e1tico. A primeira \u00e9 uma das representante da imobilidade e da in\u00e9rcia, a aus\u00eancia de movimentos, o negacionismo para um deslocamento que possivelmente nos tiraria de uma posi\u00e7\u00e3o fixa. \u00c9 a condi\u00e7\u00e3o do fan\u00e1tico, de quem habita a sua certeza como, por exemplo, \u201ca verdade \u00e9 minha e \u00fanica\u201d. Os fan\u00e1ticos erguem barreiras e bandeiras vermelhas em torno deles. Se acham guidelines.<\/p>\n<p>A segunda, com x, vem do \u00eaxtase, que quer dizer outra coisa. Esse prefixo \u201cex\u201d est\u00e1 na origem de estranho, impalp\u00e1vel, estrangeiro, experi\u00eancia. \u201cAlgum de voc\u00eas j\u00e1 experimentou ser estrangeiro de si mesmo?\u201d, \u00e9 extraordin\u00e1rio, mas n\u00e3o parece ser nada nosso. \u00c9 o que nos faz mudar, o que pode ser bom e\/ou ruim, mas, ao mesmo tempo, nos angustia, j\u00e1 que mudar tem a ver com incerteza, ao contr\u00e1rio do habitar, que nos conforta com seus h\u00e1bitos.<\/p>\n<p>Para os gregos(existanai), a ideia de felicidade \u00e9 a de sair de si, ver-se como outro de si. \u2018Estar fora de si\u2019 \u00e9 express\u00e3o perfeita para explicar esse sentimento. Ou seja, a grande alegria n\u00e3o tem nada a ver com o eu, mas com o outro. Isso me soa como terr\u00edvel para um metazoario que de bom grado recebe um enc\u00e9falo e, com ele, \u00e9 capaz de voar.<\/p>\n<p>Uma hip\u00f3tese cruel e algo triste: essa tal burrice contempor\u00e2nea, do eu que tudo sabe \u2013 s\u00f3 n\u00e3o sabe se entregar \u00e0 falta \u2013 tem levado vantagem. Sabem at\u00e9 interpretar resultados de exames sorol\u00f3gicos e tratar pacientes com drogas mirabolantes. Para concluir essa contextualiza\u00e7\u00e3o me pergunto se considero-me burro ou inteligente. Bem, quando penso em intelig\u00eancia j\u00e1 sinalizo meus bot\u00f5es para Carlos Henrique Melo Reis. Ao pensar no termo burro, minutos s\u00e3o necess\u00e1rios para me calar e parar de julgar as pessoas. Hoje tento sempre melhorar algu\u00e9m e, infelizmente, quando n\u00e3o gosto de algumas delas o distanciamento social \u00e9 a melhor op\u00e7\u00e3o. Enfim, n\u00e3o existem burros nem inteligentes, pois todos n\u00f3s temos milhares de falhas internas e externas. Hoje, existem os que tentam fazer algo produtivo para seus pares e os que absolutamente n\u00e3o fazem nada porque n\u00e3o \u00e9 de interesse pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>O sujeito da d\u00favida fica acuado como uma tartaruga dentro de sua armadura. \u00c0s vezes \u00e9 visto como fraco, mole dos miolos, esquisito, maluco, quando na verdade pode estar fazendo, com seus retalhos ps\u00edquicos, o globo andar por meio da abertura para os deslocamentos, para uma mudan\u00e7a que inclua o outro que pensa de um jeito diferente do seu. Mesmo assim, com seu sil\u00eancio, o sujeito da d\u00favida, aquele que sempre ter\u00e1 d\u00edvidas com ele pr\u00f3prio, escava buracos para o ser humano passar, como aqueles falas da segunda guerra mundial. No final ele passa, se der tempo.<\/p>\n<p>Essas pessoas n\u00e3o s\u00e3o motivacionais, nem inteligentes, nem palestrantes &#8211; elas s\u00e3o s\u00f3 pessoas que usam a empatia. Gostaria que meu av\u00f4 estivesse vivo- sinto saudades dele. Daquele cheiro que todo av\u00f4 tem, Gilvan Muzzi sabe que todo vov\u00f4 tem um cheiro esquisito na camisa e abaixo das axilas. Meu av\u00f4, Mario Orsini, poderia ser hoje taxado como um ser inteligente. Morreu com vida, deixando farrapos de roupas, uma bolsa preta onde guardava suas p\u00edfias economias e no m\u00e1ximo um par de havaianas. Ele me faz chorar sempre que penso de como me fazia feliz- uma esp\u00e9cie de felicidade que n\u00e3o requer intelig\u00eancia nem forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dedico essa cr\u00f4nica para um grande amigo m\u00e9dico que me torna sempre feliz quando ao meu lado, Eduardo Paranhos. Deixe um beijo no Luccas e no Gabriel &#8211; s\u00e3o \u201cmeus filhos tamb\u00e9m\u201d. Al\u00e9m de Dudu, Leandro Artilles, Henrique Frikmann e Mauricio Santanna tamb\u00e9m merecem meu carinho, pois se mostraram muito presentes nesse novo processo- n\u00e3o com palavras, mas atitudes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esqueci de citar um amigo e grande professsor na cr\u00f4nica, Jano Alves de Souza. Ele deve entrar nesse contexto, n\u00e3o seria justo com a cr\u00f4nica. Nos chamamos de jacar\u00e9, uma hist\u00f3ria longa de um paciente que come\u00e7ou a olhar para as pessoas e achar que eram jacar\u00e9s. Essa est\u00f3ria \u00e9 real, pois o mesmo possu\u00eda uma doen\u00e7a neurol\u00f3gica. Por falar nisso, essa est\u00f3ria que quem toma vacina virar\u00e1 jacar\u00e9 \u00e9 verdade? Ser\u00e1 bacana, pelo menos eles n\u00e3o enchem o nosso saco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa foi uma das poucas perguntas feitas por mim para a minha m\u00e3e, embora soubesse que me machucaria uma resposta inesperada, mas ela veio como uma liberta\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o filho, voc\u00ea \u00e9 ainda novo\u201d. Bety &#8211; uma mulher muito simples e piedosa &#8211; alertou-me que ainda teria tempo para me tornar mais maduro e menos ignorante. 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