{"id":7908,"date":"2022-09-25T16:39:30","date_gmt":"2022-09-25T19:39:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.folhanit.com.br\/?p=7908"},"modified":"2022-09-25T16:40:23","modified_gmt":"2022-09-25T19:40:23","slug":"embarcacao-por-marco-orsini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.folhanit.com.br\/?p=7908","title":{"rendered":"Embarca\u00e7\u00e3o &#8211; por Marco Orsini"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_6394\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6394\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-thumbnail wp-image-6394\" src=\"https:\/\/www.folhanit.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Image-150x150.jpeg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><p id=\"caption-attachment-6394\" class=\"wp-caption-text\">Marco Orsini \u00e9 MD PhD M\u00e9dico com Forma\u00e7\u00e3o em Neurologia- UFF. Professor Titular da Universidade de Vassouras e UNIG. Professor Pesquisador da P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Neurologia &#8211; UFF.<\/p><\/div>\n<p>Embarca\u00e7\u00e3o. \u00c9 assim que vejo o Brasil: como um pequeno navio atracado em correntes sem luz, ausente de movimentos, sem sons e tripulantes aptos. Conversamos aos sussurros nessa embarca\u00e7\u00e3o, como se tem\u00eassemos repres\u00e1lias advindas da terra. Realmente \u00e9s tu, Brasil, uma cortina de fuma\u00e7a com personagens desastrosos. Meus olhos, ainda jovens, o descortinaram. Estamos na beira de um penhasco ou na tal mesa da ral\u00e9 (ricos, pobres, brancos, negros, mulatos, trabalhadores ou vagabundos). Essa pequena embarca\u00e7\u00e3o j\u00e1 desmontara muitas outras famosas, mas de tanto ser \u201cquartilhado\u201d transformou-se em quintilharia. N\u00e3o podemos nos esquecer do sortimento de afli\u00e7\u00f5es, medos e frustra\u00e7\u00f5es desses tripulantes.<\/p>\n<p>Cresci ouvindo esses ju\u00edzos familiares, que pareciam comandar meu comportamento cauteloso at\u00e9 me ver longe de tais. Nas poucas aventuras que fazemos aqui pelo Rio de Janeiro, ainda existe o Maracan\u00e3; sempre circundado de pedintes miser\u00e1veis, garotas tuberculosas, usu\u00e1rios de drogas, loucos e alguns usurpadores de sonhos. Dizem que isso \u00e9 uma especie de cultura regional. N\u00e3o penso assim; morro por dentro, devagar, ao encarar tais cenas pr\u00f3ximas ao Jardim Zool\u00f3gico na Quinta da Boa Vista.<\/p>\n<p>Me reinventei nesse mundo aparentemente imagin\u00e1rio, com seus sucateadores de embarca\u00e7\u00f5es. \u201cQuem seriam tais?\u201d Passageiros adultos travestidos na luz do dia com m\u00e1scaras de cordeiros e durante a noite como sanguin\u00e1rios predadores. Ainda assim, nesse barquinho, tomo conta de Jo\u00e3o e Bento, amo a Jaqueline e ainda tenho sorte de ter bons amigos. E todo dia aqui \u00e9 assim&#8230; ao terminar a dan\u00e7a ocorre a retirada das m\u00e1scaras, e mesmo assim ningu\u00e9m fica impressionado. Tenho frequentado cada vez menos eventos abertos, com muita gente. N\u00e3o sei, pode o navio afundar. Escutar os outros de longe tem seu lado positivo. Quando o sujeito come\u00e7a a se apresentar assim \u00f3: \u201cporque eu isso, aquilo, aquilo outro, mais isso\u201d [\u2026] eu acho brilhante a tecnologia. Apago a c\u00e2mera e vou pssear com os cachorros. N\u00e3o entendo como dentro do fundo de um conv\u00e9s ainda exista gente que se ache melhor que o outro. Uns verdadeiros \u201cdescal\u00e7os\u201d em suas celas, servidos com restos de comida, apenas numa diferente bandeja de metal; mas no final \u00e9 tudo igual.<\/p>\n<p>Certa vez, por um professor, fui convidado a me vestir de forma apropriada para uma solenidade m\u00e9dica como, por exemplo, numa esp\u00e9cie de primeira classe de um transatl\u00e2ntico. Seu bilhete sugerindo que usasse uma camisa limpa e bem passada, al\u00e9m de meias e sapatos, foi arremessado na primeira lixeira ab\u00f3bora; aquelas da prefeitura. Apesar do toque de recolher que isso ocasionou em mim, sobrevivi. Mas diferente de alguns, atirei-me ao oceano para ajudar pessoas que precisavam de luz e comida para sobreviverem. Nesse momento, uma luz azul do meu quarto contrasta com um grupo de pessoas num bar, dando a impress\u00e3o de estarem num aqu\u00e1rio. Ser\u00e1 que est\u00e3o? N\u00e3o entendo de onde retiram for\u00e7as para&#8230; deixemos para outra cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e9 tarde, al\u00e9m disso gosto de ler um livro para Jo\u00e3o e Bento. Por mais que hoje n\u00e3o fa\u00e7a, conversarei de forma l\u00fadica sobre o barquinho que eles moram. Eles dormem bem, pois s\u00e3o crian\u00e7as. \u201cT\u00ednhamos um sono bom quando jovens, n\u00e3o \u00e9?\u201d Na \u00e9poca de moleque o sono era uma esp\u00e9cie de pris\u00e3o para qualquer crian\u00e7a com amigos \u00e0 sua espera. N\u00e3o quer\u00edamos dormir, pois fic\u00e1vamos excitados com os passeios, brincadeiras, gincanas. \u00c9ramos impacientes de uma maneira bacana; est\u00e1vamos de p\u00e9, escondidos de nossos pais, antes que luzes diurnas envolvessem o nosso navio. E hoje?! Imposs\u00edvel ter uma noite de sono REM, aquela parte restauradora. \u00c9 sufocante dormir com a sensa\u00e7\u00e3o de que o barco pode afundar. Para terminar: se hoje tivesse de inventar uma fotografia minha nos tempos de crian\u00e7a, ela mostraria um menino descal\u00e7o com os polegares do p\u00e9 machucados pelos chutes no asfalto, vestindo shorts e camisas de algod\u00e3o. Provavelmente um menino sujo de brincar e com cec\u00ea; aquelas tiras debaixo do bra\u00e7o suado. \u201cE quem hoje encontra-se nessa embarca\u00e7\u00e3o, j\u00e1 deu-se conta que 90% dos problemas das crian\u00e7as est\u00e1 na fam\u00edlia?\u201d A sexualiza\u00e7\u00e3o precoce e insana de crian\u00e7as, associada a permiss\u00e3o e m\u00fasicas com apologia \u00e0 drogas, agressores e violadores de ar (sufocadores), al\u00e9m de desvairados v\u00e3o minando a \u00faltima ponta de esperan\u00e7a do casco da embarca\u00e7\u00e3o: nossos filhos. Portanto, vamos lutar por\/com eles com toda a for\u00e7a poss\u00edvel. Sen\u00e3o o barco vira\u2026 o acetileno azul ir\u00e1 cortar os costados das nossas embarca\u00e7\u00f5es, que, ao inv\u00e9s de acorrentados, ficaremos \u00e0 deriva.<\/p>\n<p>Tempos de maremoto s\u00e3o prop\u00edcios para criarmos filhos fortes; com disciplina, car\u00e1ter e for\u00e7a. \u201cE o que falta nessa embarca\u00e7\u00e3o?\u201d As tempestades criarem guerreiros e adversidades fazerem de nossos filhos fortes, mas cautelosos. Tamb\u00e9m falta aos pais mais vontade, pulso forte e ensinamentos b\u00e1sicos aos filhos.<\/p>\n<p>Por fim, queria deixar claro que dentro dessa embarca\u00e7\u00e3o muitas pessoas eu amo: Joao, Bento, S\u00f4nia, Ara\u00fajo Leite, Pedro (neto desse) Melinhe e, obviamente, o ser humano nu e cru. Vamos buscar for\u00e7as para refaz\u00ea-la com amor!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Embarca\u00e7\u00e3o. \u00c9 assim que vejo o Brasil: como um pequeno navio atracado em correntes sem luz, ausente de movimentos, sem sons e tripulantes aptos. Conversamos aos sussurros nessa embarca\u00e7\u00e3o, como se tem\u00eassemos repres\u00e1lias advindas da terra. Realmente \u00e9s tu, Brasil, uma cortina de fuma\u00e7a com personagens desastrosos. Meus olhos, ainda jovens, o descortinaram. 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