Crédito da imagem: Ilustração produzida por inteligência artificial (ChatGPT/OpenAI)

Marco Orsini é MD PhD Médico com Formação em Neurologia – UFF
Em uma sala de espera, à mesa de um restaurante ou mesmo durante uma visita familiar, uma cena tornou-se comum: o idoso que, em vez de conversar com quem está ao seu lado, passa longos períodos olhando para a tela do celular. Às vezes, são notícias; em outras, vídeos curtos, mensagens ou uma sequência interminável de publicações. O tempo passa, os estímulos se sucedem, mas nem sempre existe uma experiência que exija reflexão, memória ou participação ativa.
A questão não é condenar a tecnologia. É entender o que acontece quando ela deixa de ser um instrumento e passa a ocupar o lugar de atividades fundamentais para a saúde cerebral.
O que a ciência diz sobre o uso de celulares e a cognição na velhice?
A literatura científica oferece uma resposta mais complexa do que parece. Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2025, que reuniu 136 estudos e mais de 411 mil adultos de meia-idade e idosos, encontrou uma associação entre o uso de tecnologias digitais e menor ocorrência de comprometimento cognitivo. Esse resultado, porém, não significa que o celular proteja automaticamente contra a demência: os estudos não permitem estabelecer uma relação causal definitiva.
Há uma diferença importante entre utilizar a tecnologia para aprender, resolver problemas, manter vínculos e exercitar habilidades mentais e passar horas consumindo conteúdos de maneira predominantemente passiva. No primeiro caso, o dispositivo pode ampliar oportunidades de estimulação cognitiva. No segundo, a questão central é saber o que esse hábito substitui.
O cérebro envelhecido continua capaz de aprender, adaptar-se e estabelecer novas conexões. Essa capacidade, conhecida como neuroplasticidade, não desaparece com a idade. Mas sua manutenção depende de um conjunto de fatores, entre eles atividade física, sono adequado, participação social e experiências que desafiem as capacidades cognitivas.
É justamente nesse ponto que merece atenção o uso excessivo do celular. Quando ele reduz o tempo dedicado à leitura, às caminhadas, às conversas, aos jogos presenciais e às atividades que exigem raciocínio, pode contribuir para um estilo de vida menos favorável à saúde cerebral. Uma revisão sistemática publicada em 2025 encontrou associação entre maior comportamento sedentário e piores indicadores de cognição e saúde cerebral em idosos, embora os resultados variassem entre os estudos. Isso não demonstra que a tela, isoladamente, seja a responsável.
Existe também uma dimensão emocional. O envelhecimento pode trazer aposentadoria, perdas afetivas, redução da mobilidade e mudanças na rede de relacionamentos. O celular ajuda a aproximar familiares distantes e pode diminuir a sensação de isolamento. Entretanto, não devemos confundir estar conectado com estar acompanhado. Uma mensagem pode aproximar, mas não substitui necessariamente a presença, a escuta e o contato humano.
A reflexão precisa ir além do tempo de tela. Precisamos perguntar se a tecnologia está ampliando a vida do idoso ou se está se tornando uma forma de preencher, silenciosamente, a ausência de atividades e de vínculos. A diferença é fundamental.
Também seria incorreto afirmar que o celular causa demência ou que o idoso precisa evitá-lo para preservar a memória. Estudos sobre o uso de tecnologias digitais sugerem, inclusive, possíveis benefícios cognitivos quando existem objetivos definidos e atividades estruturadas. O problema não é a modernidade, mas a maneira como nos relacionamos com ela.
Talvez o maior risco seja permitir que a facilidade do entretenimento passivo substitua o esforço de pensar, recordar, conversar e participar. A saúde cerebral não depende apenas daquilo que consumimos, mas daquilo que continuamos fazendo com a mente, com o corpo e com as pessoas ao nosso redor.
Na velhice, preservar a cognição significa continuar exercendo a curiosidade, manter relações significativas, movimentar-se, aprender e encontrar motivos para participar do mundo. O celular pode fazer parte desse processo, desde que não se transforme no próprio mundo.
A pergunta que devemos fazer não é quantas horas um idoso passa diante do celular, mas quantas oportunidades de viver, pensar, movimentar-se e conviver ele deixa escapar enquanto está diante da tela.
Afinal, envelhecer com saúde não significa apenas prolongar a vida. Significa preservar, tanto quanto possível, a autonomia, a capacidade de pensar, a memória afetiva e o prazer de estar com outras pessoas. E nenhuma tecnologia, por mais avançada que seja, deveria nos fazer esquecer disso.







